O relógio está correndo para quem planeja obter o green card pelo programa EB-5. Em 30 de setembro de 2026, expira a proteção do grandfathering — uma cláusula que blinda investidores de mudanças futuras nas regras. Quem protocolar após essa data continua elegível, mas sem rede de segurança. E, a partir de janeiro de 2027, o aporte mínimo deve saltar dos atuais US$ 800 mil para algo entre US$ 920 mil e US$ 960 mil.
O que acaba em setembro não é o programa — é a sua garantia
A reforma de 2022 criou o mecanismo de grandfathering justamente para dar previsibilidade: quem entrar sob as regras atuais continua sendo julgado por elas, mesmo que o Congresso altere a legislação ou deixe de renovar a autorização dos Centros Regionais.
Na prática, isso significa que um pedido protocolado até 30/09/2026 carrega um “seguro” embutido. Após a data, o processo segue tramitando, mas o investidor fica exposto a eventuais interrupções legislativas ou alterações de critério sem proteção contratual.
Dois prazos, dois riscos diferentes
Há datas distintas no radar e confundi-las pode sair caro:
- 30 de setembro de 2026: fim do grandfathering para novos protocolos.
- 30 de setembro de 2027: expiração da autorização atual do Programa de Centros Regionais — que depende de renovação periódica do Congresso.
Entre uma data e outra, há um vácuo de um ano onde novos investidores entram sem a blindagem jurídica, mas o programa ainda opera. É justamente esse intervalo que divide a opinião dos especialistas.
Visão conservadora: “Não arrisco meu cliente num limbo”
Para Otávio Haverroth, CEO da YOUSA Law Firm, o risco após setembro é binário: ou o programa renova normalmente, ou o investidor fica em um limbo jurídico sem prazo para resolução. A cautela o levou a suspender novos mandatos de EB-5 nas semanas finais antes do prazo.
“Qualquer imprevisto na documentação ou no envio do protocolo colocaria o cliente fora da proteção. Não vale a exposição”, resume.
Visão de mercado: “O cenário volta ao normal de 1990”
Marcelo Gorenstein, diretor da LCR Capital Partners no Brasil, discorda do alarmismo. Para ele, o fim do grandfathering apenas devolve o programa ao estado histórico: sempre houve risco legislativo, e o mercado operou assim por três décadas.
“Quem entra antes ganha uma camada extra de conforto. Quem entra depois assume o risco padrão — que nunca impediu o fluxo de capital”, afirma.
O custo da hesitação: US$ 100 mil a mais no bolso
Independente da visão jurídica, a matemática pressiona. A correção anual prevista na lei deve elevar o aporte mínimo para a faixa de US$ 920 mil a US$ 960 mil a partir de janeiro de 2027.
Muitos investidores que não conseguirão protocolar até setembro já correm para fechar até dezembro — evitando o aumento, ainda que percam a proteção do grandfathering.
Como funciona o dinheiro: investimento, não doação
O recurso (hoje US$ 800 mil) financia projetos imobiliários, hoteleiros ou de infraestrutura via Centros Regionais — estruturas autorizadas a captar e gerir o capital. O modelo domina o mercado porque contabiliza empregos diretos, indiretos e induzidos, facilitando o cumprimento da exigência de 10 postos de trabalho.
No vencimento do projeto (4 a 6 anos), o investidor recebe o principal de volta, com correção anual modesta de 1% a 2%. A rentabilidade real está no green card, não no retorno financeiro.
O funil real: origem do dinheiro é o gargalo
Antes de pensar em prazos, o candidato precisa resolver a etapa mais dura: comprovar a origem lícita de cada dólar. Declarações de IR, contratos, extratos bancários, heranças, venda de imóveis — tudo precisa formar uma cadeia documental rastreável e consistente.
É nessa fase que a maioria dos processos trava ou atrasa. Advogados relatam que a montagem do dossiê costuma levar de 3 a 6 meses só de preparação.
Cronologia do processo (quando tudo corre bem)
- Meses 1–6: estruturação, escolha do projeto, montagem da prova de origem de fundos.
- Mês 7: protocolo do I-526 (petição inicial).
- Meses 14–18: aprovação inicial → residência condicional de 2 anos.
- Mês 36–48: petição I-829 para remover condições (comprovação de empregos gerados).
- Mês 60 aprox.: green card permanente em mãos.
Custos extras além do aporte: taxas governamentais acima de US$ 10 mil + honorários advocatícios entre US$ 20 mil e US$ 50 mil.
Perfil de quem realmente faz sentido
Segundo Mila de Olano, VP da EB5AN para América Latina, o investidor típico tem:
- Capital líquido que pode ficar imobilizado por 5+ anos sem afetar o padrão de vida.
- Intenção genuína de morar nos EUA (educação dos filhos, expansão de negócios, qualidade de vida).
- Histórico de viagens limpo e nenhum descumprimento de vistos anteriores.
“O EB-5 é objetivo: só exige aporte mínimo e geração de empregos. Não há subjetividade de oficial consular. Mas a burocracia é pesada e implacável com inconsistências”, alerta.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o cenário nos próximos 18 meses:
- Renovação dos Centros Regionais em 2027: se o Congresso não renovar, o modelo dominante trava — restando apenas o investimento direto (mais arriscado e complexo).
- Volume de protocolos até setembro: corrida de última hora pode alongar tempos de processamento no USCIS.
- Definição do novo valor mínimo: a regra final de indexação sai no segundo semestre de 2026; confirme o número exato antes de fechar câmbio.
Se o green card faz parte do seu planejamento patrimonial ou familiar, a janela até 30/09/2026 oferece uma combinação única: valor atual + proteção jurídica extra. Depois dela, o cobe sobe e a rede de segurança some. A decisão, como sempre no EB-5, é menos sobre imigração e mais sobre gestão de risco e cronograma de capital.
