A Petrobras traçou a meta de produzir, até 2030, todo o diesel que o Brasil consome. A presidente Magda Chambriard anunciou o objetivo durante palestra no Clube de Engenharia, no Rio, e a conta envolve muito mais do que refino: atinge fertilizantes, estaleiros, exploração na Margem Equatorial e a fatia da estatal na transição energética.
Por que isso importa agora? Porque o diesel move a cadeia de abastecimento — do campo ao supermercado — e a dependência externa expõe o país a choques de câmbio e geopolítica. A seguir, o que está em jogo e o que observar nos próximos meses.
O eixo central: autossuficiência no diesel
A meta é clara: zerar a importação do combustível mais usado no transporte de cargas. Hoje, parte do diesel आता de fora, o que pressiona o custo logístico e, por tabela, a inflação de alimentos. Chambriard resumiu a estratégia em uma frase: “o diesel leva a comida para a casa dos brasileiros”.
Para chegar lá, a estatal aposta na expansão da capacidade de refino e na otimização das unidades existentes. Não há, porém, anúncio de novas refinarias — o foco está em extrair mais do parque atual e em projetos de modernização já em andamento.
Fertilizantes: do zero a 35% em quatro anos
Outro pilar é a produção de nitrogenados. Em 2025, a participação da Petrobras na demanda nacional deve ser nula. A meta é atingir 35% até 2029. O movimento reduz a vulnerabilidade do agronegócio a oscilações externas de preço e disponibilidade de insumos.
- 2025: produção equivalente a 0% do consumo nacional
- 2029 (meta): 35% da demanda brasileira
A retomada passa pela reativação de unidades hibernadas e novos investimentos em plantas de amônia e ureia.
Indústria naval: 400 encomendas e 17 mil empregos
O pacote de 400 embarcações de apoio para estaleiros nacionais é o sinal mais tangível de recuperação do setor. Chambriard afirmou que os estaleiros brasileiros já competem com Cingapura e China em custo e qualidade.
Os números mostram a virada: o setor empregava 71 mil pessoas em 2023 e adicionou 17 mil postos a partir de 2024. O pico histórico, nos anos 1970, colocou o Brasil na segunda posição mundial. O ciclo 2004-2015, impulsionado por exigências de conteúdo local, gerou 83 mil vagas.
Exploração: “energia não renovável exige reposição constante”
Chambriard defendeu a continuidade dos investimentos em exploração e produção. O argumento: reservas se esgotam e precisam ser repostas para manter a capacidade produtiva no longo prazo. Ela citou a Margem Equatorial — com destaque para o Amapá — e projetos na África como frentes ativas.
A lógica é geológica: o pico do pré-sal foi projetado para mais adiante, mas a preparação de novas fronteiras começa agora. Sem reposição, a curva de produção entra em declínio irreversível.
Disciplina de capital: o freio realista
Todos os planos acima dependem de uma variável que a empresa não controla: o preço do barril e o câmbio. Chambriard repetiu o mantra “disciplina de capital” e alertou: “o petróleo voltará a ficar barato”.
A executiva lamentou a venda de ativos como Liquigás e BR Distribuidora em gestões anteriores, associando-as a argumentos de lucratividade de curto prazo. Para ela, a manutenção da capacidade de investimento exige planejamento financeiro blindado contra a volatilidade do setor.
Transição energética: 30% do esforço nacional
A Petrobras quer responder por 30% da expansão necessária para levar a matriz renovável dos atuais 54% para 64%. Chambriard contextualizou: o consumo per capita de energia no Brasil equivale ao da Ucrânia ou Vietnã — abaixo da média mundial. Para chegar ao nível da África do Sul, seria necessário expandir 50%; para o da França, mais que dobrar.
Ela lançou a pergunta que fica no ar: “A Petrobras vai participar com 30% desse esforço. Quem vai gerar os outros dois terços?”
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo da execução: (1) a aprovação de licenças ambientais para a Margem Equatorial, (2) a trajetória do Brent e do dólar nos próximos trimestres e (3) a capacidade de os estaleiros entregarem as 400 embarcações no prazo e custo contratados. O equacionamento do fundo Petros, não abordado na palestra, segue como ponto de atenção para o passivo da companhia. Quem acompanha o setor deve monitorar os próximos relatórios de investimento e os leilões de áreas exploratórias — são eles que transformarão metas em moléculas no tanque.
