O próximo presidente da República herdará uma carteira de ao menos R$ 204 bilhões em concessões de infraestrutura que o governo atual prometeu leiloar em 2026, mas não tirou do papel. Rodovias, ferrovias, portos e hidrovias foram adiados para 2027 ou anos seguintes. O que explica a paralisia justamente no mandato que bateu recorde histórico de certames?
A conta que ficou para depois
O montante agrega três frentes principais. Nas ferrovias, o volume mais expressivo: R$ 154,9 bilhões em projetos adiados. Nas rodovias, são R$ 28,8 bilhões de capex previsto que não sairão este ano. Nos portos, outros R$ 20,8 bilhões ficaram pendentes, sem contar hidrovias e empreendimentos ainda sem estimativa consolidada.
Dos 13 leilões de estradas planejados para 2026, a expectativa real caiu para sete. Nos portos, apenas três de 18 certames ocorreram até setembro. As cinco concessões de hidrovias previstas foram integralmente empurradas para a frente. A agenda ferroviária, por sua vez, migrou quase toda para o próximo governo.
Recorde histórico, mas ano eleitoral freia ritmo
O cenário contrasta com o balanço do triênio 2023-2025. Foram 50 leilões de rodovias, portos e aeroportos — número superior ao de gestões anteriores, como as de Jair Bolsonaro e Fernando Henrique Cardoso. Para especialistas, a queda brusca em 2026 tem endereço certo: o calendário político.
“É natural conseguir fazer menos leilões no ano eleitoral. O governo fica muito mais sensível a esse tipo de pressão”, afirma Maurício Portugal, especialista em concessões.
Além do fator eleitoral, a estruturação dos projetos remanescentes é mais complexa. Isadora Cohen, da ICO Consultoria, resume: após as concessões mais atrativas, sobraram empreendimentos de difícil modelagem. “A gente tinha projetos que iam misturar um pouquinho de filé com osso”, diz.
Ferrovias: a complexidade do greenfield e o imbróglio da Ferrogrão
O Ministério dos Transportes previa oito leilões ferroviários para 2026. Apenas um deve ocorrer: o Corredor Minas-Rio, marcado para dezembro. Os demais esbarram na ausência de trajetória prévia de concessões greenfield (novos trilhos) no país.
O ministro George Santoro admite o ritmo: publicará editais do Anel Ferroviário do Sudeste (EF-118) e da Malha Oeste ainda este ano, mas os certames ficam para o início de 2027. O nó da Ferrogrão (EF-170), envolvendo disputa sobre pagamento de estudos, também a meta é resolvê-lo em 2026 para leilão posterior.
Como alternativa de curto prazo, a pasta apresentou sete trechos shortline (curta extensão) a investidores. Pelo menos dois devem ir a leilão até dezembro no modelo de autorização, onde a iniciativa privada constrói e opera por conta própria — rito mais ágil que a concessão tradicional.
Portos e hidrovias: conflitos sociais e modelo de canais
No setor aquaviário, os entraves são técnicos, ambientais e jurídicos. No rio Madeira, a modelagem foi revista após embates com comunidades locais e indígenas. O mesmo ocorreu nos planos para Tapajós e Tocantins, hoje sem data.
Entre os portos, o Tecon Santos 10 (R$ 6,4 bi) virou “campo de batalha” sobre o modelo de licitação, dividindo o próprio governo. O canal de acesso a Santos (R$ 6,45 bi) só teve audiência pública em setembro. Em Itajaí (ITJ01, R$ 2,66 bi), a consulta pública encerrada em agosto ainda aguarda análise de contribuições.
Dos quatro novos canais de acesso previstos para 2026 (Santos, Itajaí, Rio Grande, Salvador), nenhum tem data marcada. O Ministério de Portos e Aeroportos afirma que a carteira segue em execução em diferentes etapas de estruturação e controle externo.
Rodovias: repactuações e gargalo na ANTT
Na malha rodoviária, três leilões já ocorreram (Rotas Gerais, Rota dos Sertões e Régis Bittencourt). Quatro mais estão previstos para fechar o ano. Projetos de contratos estressados — como Transbrasiliana, Rota Planalto Sul e Litoral Sul — exigiram repactuação e ficaram para 2027.
O acúmulo de processos na ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e a suspensão de estudos também pesaram. A definição do novo cronograma oficial será divulgada pela pasta em novembro.
O que observar daqui para frente
O fechamento de 2026 será decisivo para medir a capacidade de entrega do próximo mandato. Três movimentos merecem atenção imediata: a publicação dos editais ferroviários prometidos por Santoro até dezembro; a resolução do modelo do Tecon Santos 10, teste para a nova geração de arrendamentos; e a viabilidade das shortlines como porta de entrada de capital privado em ferrovias regionais.
Se os editais saírem ainda este ano, o primeiro semestre de 2027 pode concentrar uma onda inédita de certames. Caso contrário, a fila de R$ 204 bilhões — e crescente — seguirá engordando a pauta do futuro ocupante do Planalto.
