O maior cheque do crédito privado
Apollo e Blackstone fecharam um acordo de crédito privado de US$ 35 bilhões (R$ 181,1 bi) para financiar a compra de chips da Anthropic. Mas o que torna essa operação vital para o futuro da infraestrutura de inteligência artificial e quais riscos ela esconde para os investidores?
O financiamento, apelidado internamente de projeto “Big Sky”, custeará a aquisição de processadores da Alphabet pela Anthropic. É uma das maiores transações de crédito privado já registradas, evidenciando a pressa do mercado em garantir o poder computacional exigido por gigantes como OpenAI e Meta.
Wall Street redireciona rios de dinheiro para o setor. Contudo, o tamanho do aporte levanta uma questão: a febre da IA está superaquecendo o mercado geral?
A engenharia por trás dos bilhões
A estrutura do negócio revela como o mercado está garantindo o retorno. A Atlas SP Partners, da Apollo, formou um veículo específico para captar os recursos. O lastro? Os próprios contratos de arrendamento dos chips.
A Broadcom, que fabrica as TPUs junto ao Google, garantiu os pagamentos das duas fatias seniores da dívida. Essa proteção contra inadimplência foi crucial para reduzir drasticamente o custo do empréstimo.
O Morgan Stanley assessorou a Broadcom e organizou a transação, emprestando também aos participantes. Mas o efeito mais relevante aparece na divisão dos riscos e taxas.
Risco x Retorno: a divisão da dívida
A operação foi dividida em três camadas claras de exposição. Confira a estrutura de juros e garantias:
- Fatia A1 (Bancos): US$ 6 bi com 1 ponto percentual acima do Tesouro.
- Fatia Sênior (Investidores CLO): US$ 24 bi com rendimento de 5,75%.
- Dívida Júnior: US$ 4,5 bi com taxa de 8,5%, sem garantia da Broadcom.
Investidores das fatias seniores também receberam descontos de emissão entre US$ 0,98 e US$ 0,99 por dólar aportado. Já os credores da dívida júnior aceitaram o maior risco sem a proteção do fabricante de chips.
As fissuras no mercado de chips
Nem todos aceitaram as condições. Alguns investidores recusaram o acordo por conta do formato de saque diferido da dívida, que dilui o rendimento à medida que o capital é liberado em etapas.
Além disso, compradores não tiveram acesso prévio às informações financeiras da Anthropic antes de seu futuro IPO. A opacidade é o preço de entrar cedo em uma corporação de IA de ponta.
O mercado ainda debate a velocidade com que as unidades de processamento gráfico se tornarão obsoletas conforme a tecnologia evolui. É o calcanhar de Aquiles de um lastro físico.
Um tsunami no mercado de capitais
O acordo da Anthropic não é um caso isolado. A Alphabet acaba de buscar levantar US$ 85 bilhões em uma das maiores ofertas de ações da história para impulsionar a expansão do Google.
Nesta segunda-feira (8), a Amazon levantou C$ 14 bi na maior venda de títulos em moeda do mercado. Simultaneamente, SpaceX, Anthropic e OpenAI preparam suas ofertas iniciais de ações (IPOs).
A corrida por capital ultrapassou os limites tradicionais de Wall Street e redesenha o financiamento corporativo global. O que observar daqui para frente?
O sinal de alerta para empresários e investidores é a velocidade da depreciação tecnológica. Se os chips perderem utilidade antes que a dívida seja paga, o lastro desmorona. Monitore os prazos de atualização das TPUs e o cronograma de IPOs das startups de IA — será neles que o mercado testará se os bilhões hoje garantem lucro ou prejuízo amanhã.
