Um novo livro expõe as entranhas de uma das dinastias mais enigmáticas do país, revelando como discrição obsessiva e sede de reconhecimento conviveram por gerações — e por que a morte trágica de Edmond Safra em Monte Carlo ainda assombra os negócios da família.
O jornalista e psicanalista Robson Viturino foge do manual de “como ficar rico” para entregar um retrato nu, onde genialidade financeira, proximidade perigosa com o poder e neuras familiares se misturam sem filtros.
A origem: ouro, câmbio e uma fuga forçada
Tudo começou em Aleppo, Síria, no século 19. Jacob Safra, patriarca, migrou para Beirute e fundou o Banco Jacob Safra em 1920. O cliente típico? Judeus sefarditas e imigrantes do Iraque, Turquia e Grécia que chegavam com moedas desvalorizadas.
O modelo era simples e agressivo: os Safra compravam ouro barato em Londres e Zurique e vendiam caro para recém-chegados desesperados por ativos sólidos. A operação rendia margens generosas, mas a ascensão de Israel em 1948 inflamou o antissemitismo no Líbano. Manifestantes gritavam em frente ao banco: “Jacob Safra não é libanês, é judeu!”. No início dos anos 50, a família partiu para o Brasil.
Três irmãos, um império — e a regra do “não empreste para todo mundo”
Edmond (1932–1999), Moise (1934–2014) e Joseph (1938–2020) levaram o nome Safra ao topo global. A filosofia de crédito beirava a paranoia: “Fornecer dinheiro sem informação detalhada do devedor cheira a sangue”, dizia Edmond. Joseph resumiu o segredo em uma frase: “É só não emprestar dinheiro para todo mundo que te pede”.
Essa desconfiança metódica, somada a conexões políticas cirúrgicas, pavimentou a expansão. Nos anos 70, a proximidade com Delfim Netto e Ernane Galvêas (então presidente do Banco Central) deu à família acesso privilegiado a sinais de mercado. Um executivo da época atestou: “Ele conhecia as pessoas certas para sempre acertar na mosca”.
Contradições que definem o clã
- Discrição vs. Reconhecimento: controlavam a imagem com mão de ferro, mas ansiavam por validação social e honrarias.
- Ruthless vs. Filantropos: executivos relatam caprichos cruéis e pressão asfixiante; ao mesmo tempo, a família figura entre os maiores doadores do Brasil.
- Bilionários vs. “Família comum”: Viturino destaca que, por trás dos zeros na conta, as brigas por herança e poder espelham disputas por talheres de prata em qualquer lar.
O elo com o poder: ativo ou passivo?
A relação simbiótica com governos — do regime militar a administrações democráticas, no Brasil, Europa, EUA e Israel — é tratada no livro sem moralismo, mas com dados: reuniões frequentes, influência em nomeações e acesso a informações sensíveis de política monetária. A pergunta que fica: até onde a “antecipação de juros” era mérito analítico e até onde era vazamento?
O mistério do quarto do pânico em Monte Carlo
Em 1999, Edmond morreu intoxicado por fumaça dentro do próprio bunker blindado, em Mônaco. O incêndio começou em uma cesta de lixo. O enfermeiro Ted Maher ateou fogo planejando “salvar” o patrão e ganhar bônus; o plano saiu do controle. A polícia monegasca, temendo terroristas, barrou bombeiros e o chefe de segurança de Edmond — que tinha a chave externa do quarto do pânico.
Edmond, medicado e desconfiado por natureza, recusou-se a abrir a porta mesmo após garantias das autoridades. Morreu sozinho, trancado no cofre que mandou construir para se proteger.
Brigas societárias: do gabinete à Justiça
Primeiro, Joseph e Moise travaram guerra pelo controle na primeira década dos anos 2000. Depois, os filhos de Joseph herdaram o roteiro: disputas por governança, acusações cruzadas e litígios que expõem a fragilidade da sucessão em impérios familiares sem protocolo claro.
O que observar daqui para frente
Com a terceira geração no comando e o banco sob escrutínio regulatório global, três variáveis ditam o próximo capítulo: a capacidade de profissionalizar a gestão sem perder a cultura de risco zero, a resolução definitiva das pendências societárias e a manutenção do acesso a círculos de poder sem cruzar a linha da legalidade. Para investidores e parceiros, o termômetro está na transparência das demonstrações financeiras e na clareza da estrutura de governança — não no mito.
