Justiça

O segredo do sorvete 2 estrelas: formigas tóxicas e multa de R$ 55 mil

Sobremesa de restaurante 2 estrelas Michelin com formigas secas proibidas na Coreia do Sul
O prato que rendeu multa de R$ 55 mil por usar formigas como ingrediente não autorizado.

Uma sobremesa servida em um restaurante com duas estrelas Michelin na Coreia do Sul resultou em uma multa de 15 milhões de won — cerca de R$ 55 mil — para a proprietária. O motivo não foi a criatividade do prato, mas a presença de formigas secas importadas, ingrediente proibido pela legislação sanitária local.

O Tribunal Distrital Ocidental de Seul condenou a empresária na última quarta-feira (16). A defesa alega que o chef utilizava os insetos para conferir acidez à receita, prática comum nos Estados Unidos e na Europa, sem saber que a legislação sul-coreana veta especificamente essa espécie.

O ingrediente que ninguém avisa ser proibido

Pela Lei de Saneamento Alimentar da Coreia do Sul, apenas dez espécies de insetos são liberadas para consumo humano, como gafanhotos e bichos-da-seda. Formigas não entram na lista. Para servi-las, o estabelecimento precisaria de uma autorização especial que nunca foi solicitada.

O caso ganhou contornos mais graves quando o Ministério da Segurança Alimentar e Farmacêutica analisou o produto. Os laudos apontaram níveis de metais pesados até 55 vezes superiores ao limite máximo tolerado para os insetos permitidos no país.

Por que isso muda o jogo para a alta gastronomia

O episódio expõe um abismo regulatório entre mercados. O que é tendência em Copenhague ou Nova York pode configurar crime sanitário em Seul. Para investidores e donos de restaurantes que operam ou planejam expandir para a Ásia, o recado é claro: a origem do ingrediente não garante a legalidade do prato.

  • Coreia do Sul: Lista restrita de 10 insetos; exigência de registro prévio para novidades.
  • União Europeia: Desde 2021, autoriza quatro espécies (larva-de-farinha, gafanhoto-migratório, grilo-doméstico, besouro-da-ninhada).
  • EUA (FDA): Permite insetos criados em condições higiênicas; tolera fragmentos em alimentos processados.
  • Brasil: Sem lei proibitiva; Anvisa segue padrão dos EUA para fragmentos acidentais.

O mercado global já come insetos — e não é pouco

Segundo a FAO, agência da ONU para alimentação, dois bilhões de pessoas já consomem insetos rotineiramente. Formigas, besouros, lagartas e grilos lideram a preferência. No Sudeste Asiático, países como Tailândia e Vietnã comercializam mais de 900 espécies comestíveis, muitas vendidas em bancas de rua.

A entidade vê a entomofagia como pilar para a segurança alimentar futura: alta proteína, baixo impacto ambiental. Mas a ciência corre mais rápido que a burocracia. A Coreia do Sul, apesar de tecnologicamente avançada, mantém uma barreira cultural e legal rígida contra espécies fora da lista oficial.

O que observar daqui para frente

A multa serve de alerta para a cadeia de fornecedores de “novel foods”. A tendência global é a liberalização gradual — a UE já revisou a legislação duas vezes em três anos. No entanto, cada mercado exige due diligence específica. Quem importa ingredientes exóticos para cardápios premium deve mapear não só a legislação de origem, mas a do destino final, incluindo limites de contaminantes como metais pesados.

O próximo passo da indústria será pressionar por harmonização de normas, mas, até lá, a regra é uma só: no prato do cliente, a lei que vale é a da mesa onde ele está sentado.