Empresários estão redescobrindo o valor do encontro físico como resposta direta ao avanço da inteligência artificial. O movimento não é saudosismo: é estratégia de sobrevivência.
Rodrigo Martins, sócio-fundador da Agência Nuts, afirma que experiências ao vivo funcionam como antídoto para a angústia tecnológica. A tese ganhou forma depois de um ano em que a IA acelerou planejamentos e expandiu arsenais de ferramentas — mas também instalou o medo de tornar profissionais e marcas intercambiáveis.
O estalo diante de uma “fogueira digital”
A virada de chave ocorreu durante um evento em formato de arena. No centro, o palestrante Arthur Igreja; ao redor, o público. Igreja interrompeu a fala sobre tecnologia e fez a leitura do momento:
“Eu tô falando de tecnologia, mas vocês entenderam o formato disso aqui? Tô eu no meio, vocês tão em volta de mim, tô contando história e só falta uma fogueira.”
Para Martins, a metáfora da fogueira explicou por que a demanda por festivais, conferências e imersões presenciais voltou a crescer mesmo com ferramentas de videoconferência e conteúdo sob demanda maduras.
Por que o desconforto virou ativo valioso
O executivo aponta que o “desconforto do ao vivo” — a exposição, o improviso, a imperfeição — é exatamente o que cria laços que campanhas digitais polidas não conseguem.
- Vulnerabilidade real gera confiança mais rápida do que conteúdos roteirizados
- Erro humano compartilhado vira memória coletiva
- Networking não programado supera algoritmos de matchmaking
Em um cenário onde a IA entrega conforto, velocidade e previsibilidade, a falha humana passa a ser diferencial competitivo.
O ciclo do medo: pandemia, depois IA
A Agência Nuts, especializada em experiências corporativas, enfrentou paralisação total na pandemia. Quando o mercado reaqueceu, a explosão de ferramentas generativas trouxe novo temor: “será que eventos também vão ser substituídos?”.
Dados do setor mostram que o faturamento de live marketing no Brasil recuperou patamares pré-2020 já em 2024, com crescimento de dois dígitos em 2025. A explicação não está apenas na “volta ao normal” — está na revalorização do que não pode ser gerado por prompt.
Variedade setorial como motor de inovação
Martins destaca que atender segmentos distintos — de varejo a indústria pesada, de tecnologia a agronegócio — impede a estagnação criativa. Cada projeto exige imersão em linguagens, dores e rituais diferentes.
Essa rotação força a equipe a reaprender constantemente, algo que a própria IA, por mais rápida que seja, não substitui: a intuição calibrada por contexto real.
O que observar nos próximos trimestres
Três sinais indicam se a tese do “antídoto presencial” se sustenta como tese de investimento:
- Orçamentos de live marketing crescendo acima da inflação em grandes anunciantes
- Formatos híbridos priorizando o presencial como núcleo, não como complemento
- Métricas de retenção de talentos e clientes vinculadas a experiências compartilhadas
Se a inteligência artificial continuar commoditizando execução e conteúdo, o ativo mais escasso — e portanto mais caro — será a presença humana imperfeita. Quem souber desenhar para essa escassez, lidera.
