O IBGE divulgou nesta quinta-feira (17) os dados da Produção Agrícola Municipal de 2025, revelando que São Paulo e Rio de Janeiro somam, juntas, menos de 0,04% do valor bruto da agropecuária nacional. O montante parece irrelevante diante dos R$ 927,2 bilhões do Brasil, mas esconde dinâmicas de mercado essenciais para quem abastece as duas maiores metrópoles do país.
Na capital paulista, a atividade gerou R$ 231,8 milhões. No Rio, R$ 52,7 milhões. A diferença de escala expõe realidades produtivas distinctas que impactam diretamente a logística de hortifruti e o preço na gôndola.
Alface reina em São Paulo; mandioca sustenta o Rio
A especialização é o traço mais forte. Em São Paulo, a alface concentra 81,2% de todo o valor da produção agrícola municipal, totalizando R$ 188,3 milhões. É uma cultura de ciclo curto, alta perecibilidade e demanda constante — fatores que explicam a concentração no extremo sul da cidade, em Parelheiros.
No Rio de Janeiro, a mandioca responde por 61,7% do valor (R$ 32,5 milhões), seguida pelo coco-da-baía (R$ 7,6 milhões), produto icônico da orla, mas com peso econômico real nas lavouras de Santa Cruz, na zona oeste.
O ranking dos “coadjuvantes” nas duas capitais
Além dos carros-chefes, outras culturas completam a pauta de abastecimento local. Veja a ordem de valor em 2025:
- São Paulo: Chuchu (R$ 30,5 mi), Repolho (R$ 5,8 mi), Banana (R$ 1,7 mi).
- Rio de Janeiro: Chuchu (R$ 5,3 mi), Banana (R$ 4,7 mi).
Chama atenção a presença do chuchu nas duas listas. A hortaliça funciona como “segunda safra” ou rotação em pequenos lotes, garantindo fluxo de caixa ao produtor entre ciclos principais.
O abismo para os gigantes do Centro-Oeste
Para calibrar a perspectiva: 992 municípios brasileiros superaram a produção paulistana e 2.525 superaram a carioca. Sapezal (MT), líder nacional, sozinho gerou R$ 8,6 bilhões — 37 vezes o valor de São Paulo e 163 vezes o do Rio. O algodão mato-grossense opera em outra órbita logística e financeira.
Essa disparidade não invalida a agricultura urbana. Pelo contrário: ela cumpre papel estratégico de “última milha” para folhosas e raízes de mesa, reduzindo perdas no transporte e garantindo frescor que o modal rodoviário de longa distância não entrega.
O que observar daqui para frente
A pressão imobiliária sobre Parelheiros e Santa Cruz tende a aumentar. Ao mesmo tempo, programas de agricultura periurbana e compras institucionais (merenda escolar, restaurantes populares) podem injetar previsibilidade de renda nesses polos. Para investidores e gestores de supply chain, monitorar a regularidade fundiária e o acesso a crédito rural nessas áreas é tão crítico quanto acompanhar a safra de soja no Matopiba.
