O BRICS Pay saiu do papel e começa a conectar sistemas como o Pix para liquidar comércio em moedas locais, decisão sacramentada na cúpula de setembro. A medida ataca direto a dependência do SWIFT em rotas estratégicas do bloco. Mas a verdadeira mudança não é a substituição imediata — é a fragmentação silenciosa que já começou.
Como funciona a ponte entre Pix, UPI e Mir
A arquitetura aprovada na 18ª Cúpula, realizada em Nova Deli nos dias 12 e 13 de setembro, prevê interoperabilidade nativa. Não há promessa de uma rede única, mas de “pontes” entre infraestruturas já maduras.
Na prática, o Pix brasileiro conversaria direto com o UPI indiano e o Mir russo. Uma empresa em São Paulo pagaria um fornecedor em Mumbai ou Moscou em reais, rúpias ou rublos, sem passar pela conversão obrigatória em dólares nem pelo canal tradicional de mensageria.
O Conselho Empresarial do BRICS é o motor operacional por trás desse investimento. O objetivo declarado é expandir sistemas de negociação de moedas nacionais e pagamentos transfronteiriços, reduzindo atrito e custo de spread cambial.
O golpe real no monopólio do dólar
Especialistas citados pela Al Jazeera alertam: o SWIFT não vai desaparecer. Ele continuará processando a maior parte do volume global. A disrupção está na perda de peso relativo em corredores específicos.
Se 20% do comércio intra-BRICS migrar para rails próprios em dois anos, a receita de mensageria e o poder de sanção atrelados ao sistema ocidental encolhem na mesma proporção. Para o empresário, isso significa menor custo de hedging e liquidação mais rápida (T+0 ou T+1 contra T+2/T+3 padrão).
Por que a fragmentação assusta (e interessa) ao mercado
A consequência profunda, segundo a análise, é uma arquitetura financeira multipolar. Diferentes redes coexistem, e o agente econômico escolhe a mais barata ou segura para sua rota.
Para governos expostos a sanções ou volatilidade geopolítica, o BRICS Pay vira um “seguro” operacional. Não é ideologia; é gestão de risco de continuidade de negócios. A fragmentação tira o “single point of failure” que o sistema concentrado representa hoje.
- Interoperabilidade: Pix (Brasil) + UPI (Índia) + Mir (Rússia) como base técnica.
- Moeda local: Liquidação sem passagem obrigatória pelo dólar americano.
- Governança: Descentralizada, liderada pelo Conselho Empresarial, não por um banco central único.
O que Suslov revelou sobre o tabuleiro geopolítico
Dmitry Suslov, vice-diretor do Conselho Russo de Política Externa e Defesa, foi direto: o BRICS ocupa papel central na construção de alternativas à estrutura atual. A leitura é que o avanço dessas iniciativas acelera a transição para um sistema com maior diversidade de plataformas, moedas e redes.
Não há ruptura brusca, mas erosão constante. Cada país que adota a ponte bilateral fortalece o efeito de rede do ecossistema paralelo. Quem ignora o movimento corre o risco de pagar prêmio de risco desnecessário em contratos futuros.
O que observar daqui para frente
Fique atento a três marcos nos próximos 12 meses: a definição técnica dos padrões de API entre os bancos centrais participantes; o volume real de transações piloto divulgado pelo Banco Central do Brasil e pelo RBI indiano; e a reação regulatória do G7 e do FSB (Financial Stability Board) sobre normas de compliance e AML para essas novas rotas. Quem mapear esses sinais primeiro captura a arbitragem de custo e risco antes da massa.
