Economia

O segredo do valuation no Brasil: o desconto não está nas ações, está nos juros…

Gráfico de valuation Brasil: juros altos comprimem múltiplos, prêmio de risco 4% vs média 5%
O custo de capital estratosférico, não o preço das ações, explica o desconto na Bolsa brasileira.

A Kinea afirma que a Bolsa brasileira não está barata pelo preço das ações, mas sim pelo custo de capital estratosférico que comprime os múltiplos. O prêmio de risco local ronda 4%, abaixo da média histórica de 5% e entre os menores do mundo excluídas as commodities. A gestora alerta: o investidor não ganha prêmio extra pelo risco da renda variável; ganha prêmio baixo sobre uma taxa livre de risco extraordinária.

O lucro que não cresce há 15 anos

Em dólar, o lucro das empresas listadas está 36% abaixo do patamar de 2010. A média anual foi negativa nessa janela e estagnou nos últimos cinco anos. Quem apostou no crescimento composto dos resultados não foi remunerado; o retorno veio apenas de acertar entrada e saída. A Bolsa, portanto, precifica-se como ativo de timing, não de valor intrínseco crescente.

A assimetria setorial agrava o quadro. Em uma década, produtores de commodities expandiram lucros nominais a 16,5% ao ano. Empresas focadas no mercado doméstico avançaram apenas 3,5% ao ano — abaixo do IPCA médio de 5%. O índice mascara uma realidade de dois Brasis distintos.

Como montar a carteira sem virar refém do palpite político

A recomendação da Kinea é parar de enxergar o Ibovespa como um bloco único. A estratégia proposta combina dois pilares que funcionam em cenários opostos, dispensando a necessidade de prever o futuro da política fiscal:

  • Pilar Defensivo (peso majoritário hoje): Utilities e incorporadoras de baixa renda. Negócios com concessões longas, receitas indexadas e caixa previsível mesmo com Selic em dois dígitos.
  • Pilar de Opção (alto risco/retorno): Bancos e varejistas. Múltiplos deprimidos que explodem de valor se a política fiscal mudar e os juros caírem.

O risco de não se posicionar, segundo a gestora, supera o de errar a alocação. “O mercado não precifica o fato consumado: precifica a percepção, e ela começa a se formar muito antes de qualquer apuração.”

Os nomes por trás da tese defensiva

No setor de utilities, a atratividade não está no P/L, mas no retorno real implícito frente à NTN-B — elevado mesmo com o título pagando 8% acima da inflação. As top picks são Sabesp, Eneva e Orizon.

Já nas incorporadoras do programa Minha Casa, Minha Vida, a combinação rara é geração de caixa consistente, pagamento de dividendos e crescimento suportado por política pública. Os escolhidos: Cury e Tenda.

O gatilho das “oportunidades comprimidas”

Bancos e varejistas sofrem hoje com a trifeta: juros altos, economia fraca e endividamento do consumidor agravado pela drenagem de recursos para apostas esportivas (bets). Em uma virada de cenário fiscal, porém, tornam-se as maiores alavancas do índice.

A lista de sensibilidade extrema ao ciclo inclui: Bradesco, BTG Pactual, Itaú Unibanco, Santander, Assaí, Azzas 2154, C&A, Lojas Renner, Magazine Luiza, RD e Vivara. O Banco do Brasil fica de fora pela exposição específica ao ciclo do agronegócio.

O que observar daqui para frente

A calibragem da carteira depende da leitura do cenário eleitoral e fiscal. A Kinea sugere manter o viés defensivo dominante enquanto a incerteza persiste, aumentando a exposição ao pilar de opção apenas quando houver sinais claros de mudança na trajetória da dívida pública. O monitoramento do prêmio de risco — hoje em 4% — serve como termômetro: se subir para a média histórica de 5% sem alta de juros, o sinal de entrada no risco será mais robusto do que qualquer discurso político.