O Google fechou sua maior compra de remoção de carbono da história com a startup Terradot, e a operação começa nos arrozais do Rio Grande do Sul. O acordo prevê retirar 2 milhões de toneladas de CO2 equivalente da atmosfera até 2040, unindo uma técnica de manejo de água a uma tecnologia de intemperismo de rochas. O valor da transação não foi revelado, mas a urgência por trás do cheque é clara: as emissões da big tech dispararam 18% apenas em 2025.
O arroz que “respira” e corta o metano
A primeira meta é ambiciosa: capturar 1 milhão de toneladas até 2030 apenas mudando como o arroz é plantado. A Terradot vai ajudar produtores gaúchos a adotar o sistema de umedecimento e secagem alternados (AWD) em 200 mil hectares.
Em vez de manter os campos alagados o tempo todo, o agricultor drena a água periodicamente. Isso corta a emissão de metano — gás com poder de aquecimento 30 vezes superior ao CO2 no curto prazo — e ainda economiza água. Como o metano some da atmosfera em cerca de dez anos, o efeito climático é quase imediato.
Pó de rocha vulcânica: a aposta permanente
O segundo milhão de toneladas virá de uma frente radicalmente diferente. A partir de 2030, a parceira espalhará pó de rocha basáltica triturada em lavouras para ativar o intemperismo acelerado.
O mecanismo é químico: a chuva forma ácido carbônico ao cair, reage com os minerais da rocha e gera bicarbonato. Essa molécula estável desce pelo solo, atinge o lençol freático e vai parar nos oceanos, travando o carbono por milênios. Diferente do reflorestamento, esse armazenamento é considerado irreversível.
- Curto prazo (2030): 1 mi t CO2e via redução de metano no arroz (AWD).
- Longo prazo (2040): 1 mi t CO2e via intemperismo de rochas (basalto).
- Área inicial: 200 mil hectares no Rio Grande do Sul.
A conta do carbono que não fecha no balanço do Google
Mas há um detalhe incômodo no comunicado da empresa. Enquanto anuncia megacontratos de remoção, a pegada operacional do Google explodiu: atingiu 14,4 milhões de toneladas de CO2e em 2025, alta de 80% desde 2019.
O motor desse crescimento é o consumo energético dos data centers turbinados por inteligência artificial. Para piorar, a companhia contabiliza as emissões pelo método “baseado na ambição”, que exclui atividades consideradas periféricas — como serviços de software e TI. Se o escopo fosse completo, o número real seria ainda maior.
A meta de neutralidade total para 2030, prometida em 2021, hoje parece um alvo móvel. Cada tonelada comprada da Terradot mal arranha a superfície do que é emitido anualmente.
O que observar daqui para frente
A escalabilidade do projeto no Brasil será o termômetro. Se o modelo AWD + basalto funcionar em 200 mil hectares gaúchos, a Terradot promete expandir para outras regiões. Para o investidor ou gestor de sustentabilidade, três variáveis mandam no jogo: o custo real por tonelada removida (ainda sigiloso), a velocidade de verificação científica do intemperismo em solo tropical e a pressão regulatória para que o Google inclua emissões de escopo 3 na conta oficial. O cheque foi assinado; a prova de que a equação fecha virá na próxima safra.
