O Aterro de Seropédica deixa de ser apenas o destino final de 10 mil toneladas diárias de resíduos para se tornar uma usina de energia que move os próprios caminhões que o abastecem. A economia circular saiu do papel e já corta 615 mil litros de diesel por mês. Mas o impacto real vai muito além da frota.
Cada tonelada de matéria orgânica decomposta gera metano — gás 28 vezes mais potente que o CO₂ no aquecimento global. Capturar esse gás e transformá-lo em biometano resolve dois problemas de uma vez: evita emissões e substitui combustível fóssil. A operação em Seropédica é hoje a maior produtora de gás de aterro do Brasil.
Como a montanha de lixo vira combustível limpo
O processo começa na disposição dos resíduos. Camadas de argila vedam o material, criando ambiente anaeróbio ideal para bactérias que decompõem orgânicos e liberam biogás. Uma rede de tubulações percorre os 90 metros de altura do aterro — 15 anos de operação — captando o gás e levando-o à unidade de tratamento.
Lá, o metano é separado de impurezas como sulfeto de hidrogênio e CO₂. O resultado é biometano com pureza superior a 95%, equivalente ao gás natural veicular (GNV), mas de origem renovável. O combustível é comprimido, armazenado em cilindros e distribuído.
Números que mostram a escala da mudança
- 10 mil toneladas/dia de resíduos recebidos, maior parte orgânica
- 60 carretas na frota de transporte — 10% já rodam 100% a biometano
- Meta: 100% da frota adaptada até dezembro deste ano
- 615 mil litros de diesel poupados por mês com a troca completa
- 100 caminhões da Comlurb já fazem coleta domiciliar movidos a biometano
- 7 indústrias e 26 postos abastecidos atualmente
Motoristas que testaram os veículos relatam desempenho idêntico ao diesel. “Potência 100%, confiável”, resume o carreteiro Salvador Vicente, que admite ter duvidado antes de dirigir.
Por que a tendência é crescer nos próximos anos
A decomposição de resíduos em aterros segue curva ascendente por décadas após o fechamento. Mesmo sem receber novo material, Seropédica continuará gerando biogás em volumes crescentes nos próximos 20 a 30 anos. A infraestrutura de captação e tratamento já está instalada — o custo marginal de expansão é baixo.
Além disso, veículos movidos a GNV aceitam biometano com adaptação simples. A frota pesada brasileira tem milhares de caminhões compatíveis. Cada posto que hoje vende GNV pode, sem grande investimento, oferecer biometano.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão a velocidade de expansão: regulação de créditos de carbono para biometano de aterro, incentivos estaduais para conversão de frotas pesadas e a capacidade de logística de distribuição — hoje o gargalo para levar o combustível a postos mais distantes. Se esses entraves forem resolvidos, o modelo de Seropédica pode ser replicado em outros grandes aterros metropolitanos, transformando passivo ambiental em ativo energético em escala nacional.
