A Anfavea, historicamente uma entidade de bastidores, acaba de rasgar o manual de conduta ao entregar um manifesto direto aos presidenciáveis e assinar um documento transversal que questiona o Supremo Tribunal Federal. A mudança expõe uma fratura inédita entre o setor automotivo e o Planalto.
O que levou as montadoras a trocar a discrição por confronto aberto? A resposta passa por cotas de importação, a ascensão das marcas chinesas e uma sucessão de comando que alterou o DNA da associação.
O fim da discrição nos bastidores
No fim de agosto, a entidade distribuiu a “Agenda para os Presidenciáveis” logo após receber o senador Ronaldo Caiado (PSD) em sua sede. O gesto rompe uma tradição: em ciclos eleitorais anteriores, as conversas ficavam restritas a gabinetes em Brasília, sem holofotes.
O documento vazou em meio à crise do STF e às manchetes eleitorais, o que abafou a repercussão imediata. Ainda assim, o texto revela uma insatisfação acumulada com decisões recentes do governo federal.
A conta que não fecha: cotas, Mover e a ameaça chinesa
O ponto de ignição foi a renovação das cotas que permitem trazer kits de veículos eletrificados com isenção do Imposto de Importação. Para as montadoras instaladas aqui, a medida premia quem apenas monta e pune quem investe em engenharia local.
A agenda elenca quatro pilares não negociáveis para o próximo ciclo político:
- Continuidade de política industrial consistente após 2028, estendendo os avanços do programa Mover.
- Regras claras de conteúdo local que valorizem desenvolvimento tecnológico próprio.
- Redução estrutural de custos (tributários, logísticos e energéticos).
- Estímulo concreto às exportações para ganhar escala.
Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: a geopolítica comercial.
Tecnologia flex: o trunfo que o Brasil não quer perder
O manifesto cita explicitamente o motor flex como a maior contribuição da engenharia brasileira ao automobilismo global. A capacidade de rodar com etanol e gasolina em qualquer proporção é um ativo estratégico que diferencia o país.
O detalhe crítico: as marcas chinesas já dominaram essa tecnologia. Seus híbridos flex chegam ao mercado com apelo verde, anúncios de fábricas, bilhões em investimentos e promessas de empregos — tudo muito bem recebido pelo governo.
Em março de 2025, semanas antes de assumir a presidência da Anfavea, Igor Calvet articulou uma carta cobrando medidas para conter o avanço chinês. Era o prenúncio do tom beligerante que marcaria sua gestão.
O novo sheriff: Igor Calvet e a guinada de 180 graus
Até 2025, a Anfavea era presidida por executivos de carreira das montadoras, em rodízio entre as maiores associadas. Eram multinacionais que evitavam qualquer posicionamento que extrapolasse a pauta econômica estrita.
Calvet quebrou esse protocolo. Na semana passada, a entidade assinou um manifesto conjunto com outros setores empresariais denunciando uma “crise institucional de extrema gravidade” no STF. A frase “Não há Estado de Direito sem juízes acima de qualquer suspeita” carimba o novo posicionamento: a associação agora fala de política, justiça e ordem constitucional.
O que observar daqui para frente
O movimento sinaliza que o setor automotivo não aceitará mais ser variável dependente de decisões unilaterais. Para investidores e empresários, três variáveis merecem monitoramento contínuo: a reação do governo às demandas do Mover pós-2028, a velocidade de entrada dos híbridos flex chineses e a disposição do Congresso em legislar sobre conteúdo local com teeth.
Quem leu até aqui sabe: a discrição acabou. O próximo capítulo será escrito no embate público, não nos corredores.
