A Casas Bahia abriu simultaneamente dois leilões online com mais de 360 lotes de eletrônicos e eletrodomésticos, com lances iniciais que chegam a 67% abaixo do valor de referência. Mas, antes de ofertar, o empresário ou investidor precisa entender a origem dos itens e as regras que transformam o “negócio da China” em aposta de alto risco.
Os eventos ocorrem na plataforma Kwara e encerram em dias distintos: o primeiro, com 236 lotes, fecha em 9 de setembro de 2026 (produtos no Rio de Janeiro); o segundo, com 130 lotes, vai até 16 de setembro de 2026 (itens em Jundiaí, SP). A coincidência com o fechamento de 298 lojas do grupo levanta suspeitas, embora a varejista negue relação direta.
O que está na mesa: números que chamam a atenção
O apelo financeiro é inegável. A diferença entre o valor de referência e o lance atual supera a casa dos 60% em vários lotes-chave. Veja os destaques mapeados na consulta mais recente:
- Smartphone Samsung Galaxy A07 (128GB): Lance a R$ 350 (referência R$ 540,96) — ~35% de desconto.
- Lote com 7 TVs (LG, AOC, TCL, Samsung, Philco): Lance a R$ 5.096 (referência R$ 15.588,70) — ~67% de desconto. Atenção: lance único para o conjunto.
- Geladeira Electrolux IT56S: Lance a R$ 1.073 (referência R$ 3.204,23) — ~67% de desconto.
- Lavadora Consul CWH12BB: Lance inicial R$ 561 (referência R$ 1.517,70) — ~63% de desconto.
- Kit Ar-condicionado Hisense + 2 Micro-ondas Electrolux: Lance abaixo de R$ 2.715,26 (referência).
Há ainda fogões Dako e Atlas em lotes duplos por menos de R$ 900, e notebooks Lenovo no evento do Rio de Janeiro. A variedade atrai tanto revendedores quanto consumidores finais, mas a leitura fria dos dados esconde variáveis decisivas.
A origem do estoque: logística reversa, não “queima de estoque”
Este é o ponto onde a narrativa de “oportunidade” encontra a realidade operacional. A Casas Bahia afirma que os leilões são recorrentes e alimentados por logística reversa e fluxo de assistência técnica — não pelo inventário das 298 lojas fechadas recentemente.
Na prática, isso significa que os produtos podem ser:
- Devoluções de clientes (arrependimento ou defeito);
- Itens com avarias estéticas ou funcionais;
- Equipamentos não testados pela plataforma;
- Unidades incompletas (sem acessórios, manuais ou peças);
- Casos extremos classificados como “sucata” no edital.
A Kwara é explícita: a venda ocorre no estado em que se encontram (“as is”), sem garantia de funcionamento, troca ou devolução. O risco de receber um “tijolo” caro é real e não coberto por CDC (Código de Defesa do Consumidor) em leilões judiciais/extrajudiciais B2B.
Custos invisíveis: o lance não é o preço final
Muitos amadores param no valor do lance. O profissional calcula o Custo Total de Aquisição (CTA). Adicione à conta:
- Comissão da leiloeira (percentual sobre o lance);
- Taxas administrativas fixas;
- Frete e logística de retirada (responsabilidade exclusiva do arrematante);
- Eventuais reparos ou destinação ambientalmente correta se for sucata.
No leilão de Duque de Caxias (RJ) não há visitação presencial. Em Jundiaí (SP), há previsão de visita agendada para 14 de setembro. Quem não inspeciona, compra no escuro — estratégia viável apenas para lotes de baixíssimo valor onde a perda é tolerável.
O cenário macro: reestruturação ou rotina?
O balanço de agosto confirmou o fechamento de 298 unidades e demissões em massa. A companhia sustenta que os leilões são prática padrão de gestão de ativos ociosos e sinistrados. Para o mercado, a simultaneidade de grandes lotes em dois estados sugere desova logística acelerada, independentemente da narrativa oficial.
Isso não invalida a compra, mas muda a tese de investimento: deixa de ser “compra de varejo barato” para virar “aquisição de ativos distressed para recuperação ou peças”.
Checklist final: o que observar antes de 9 e 16 de setembro
Se você leu até aqui, já sabe que a margem bruta aparente esconde variáveis operacionais pesadas. Para quem decidir participar, a roteiro prático é:
- Baixe os editais completos no site da Kwara (não confie só nas fotos do catálogo);
- Calcule o CTA máximo viável antes de dar o primeiro lance;
- Se for pessoa jurídica, avalie se a nota fiscal de leilão atende sua contabilidade;
- Programe a logística de retirada antes de arrematar — prazos costumam ser curtos e multas por atraso, altas;
- Monitore os lances nos minutos finais (“sniping” é padrão); defina teto e não ultrapasse.
Oportunidades existem, especialmente para quem tem estrutura técnica para triagem e reparo. Para o comprador comum, a conta costuma fechar no vermelho. O próximo movimento do mercado será a liquidação física dos imóveis das lojas fechadas — esse, sim, um termômetro real do valor residual da marca.
