O governo precisa equilibrar as contas para derrubar os juros, mas uma isenção bilionária para o topo da pirâmide financeira trava o ajuste. A conta, de R$ 32 bilhões só no último ano, recai sobre ativos que competem direto com a dívida pública. A solução passa por mexer em privilégios intocáveis — e o relógio está correndo.
O dilema entre o voto e o juro
O mandato nasceu da promessa de proteger programas sociais. Quase terminou antes de começar, sufocado por juros altos e inflação — fenômeno que derrubou governantes globais no pós-pandemia. Governar agora exige conciliar o que garantiu a vitória com o que quase causou a derrota.
Segurar a trajetória da dívida é a condição para a Selic cair. Juros menores aceleram o PIB e, por tabela, melhoram a relação dívida/PIB pelos dois lados da equação. É uma engenharia delicada, onde cada erro de rota custa caro ao investidor e ao empresário.
A “privatização da Faria Lima” e os R$ 32 bilhões
O ponto de partida mais óbvio para o ajuste não está no corte de direitos, mas na tributação do capital financeiro isento. Dados recentes mostram que a isenção de ativos como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas drenou R$ 32 bilhões dos cofres públicos em um único exercício.
Esses títulos subsidiados não apenas reduzem a arrecadação. Eles concorrem diretamente com os papéis do Tesouro, forçando o governo a pagar prêmios maiores para rolar a dívida. É um duplo prejuízo: menos receita entrada e mais despesa de juros na saída.
- LCI / LCA: Isenção total para pessoa física.
- CRI / CRA: Incentivo ao setor imobiliário e do agronegócio via mercado de capitais.
- Debêntures de infraestrutura: Benefício para funding de longo prazo.
Outros alvos: supersalários e emendas
Corrigida a distorção dos ativos financeiros, a lupa deve virar para o custeio da máquina. Supersalários no funcionalismo e o volume recorde de emendas parlamentares entram na mira como “gastos ruins” — aqueles que não geram retorno social nem produtivo.
Se ainda houver gap fiscal após essa limpeza, a discussão avança para a indexação das políticas sociais. A regra continuaria existindo, mas desenhada de forma anticíclica. Hoje, o gasto público sobe na bonança e cai na crise, amplificando os ciclos e jogando toda a responsabilidade de estabilização no colo da Selic.
O gasto social pró-cíclico que quebra a regra
O Brasil gasta mais quando a economia vai bem e aperta o cinto quando vai mal — o oposto do manual de macroeconomia. Essa inércia pró-cíclica torna a política monetária refém: a taxa básica precisa subir mais do que o necessário para compensar a expansão fiscal na hora errada.
Uma regra anticíclica criaria colchão nas vacas gordas e espaço para contrapartida nas magras. Preservaria, inclusive, a política de valorização real do salário mínimo e outras bandeiras de campanha, blindando-as da volatilidade.
Dívida sensível à Selic: o debate técnico
Enquanto o ajuste fiscal anda, cresce a discussão sobre a estrutura da dívida. A proporção de títulos pós-fixados (atrelados à Selic) no Brasil destoa do padrão internacional. Isso torna o serviço da dívida extremamente sensível a cada alta de 0,25 ponto na taxa básica.
Economistas apontam que alongar prazos e aumentar a fatia de prefixados e indexados à inflação reduziria o risco de rolagem. O tema é técnico, mas o impacto é direto no custo de carregamento da dívida e na previsibilidade do investidor de longo prazo.
A proposta de Lara Resende: por que foi descartada
Houve debate recente sobre mudar o regime de fixação de juros, com proposta de conselho econômico autônomo e metas de câmbio. A avaliação majoritária rejeitou o modelo: pressupõe instituições politicamente inviáveis, expõe o país a crise cambial sem reservas suficientes para defesa e, ironicamente, ainda exige o ajuste fiscal que se tentava evitar.
O diagnóstico consensual permanece: não há atalho monetário que substitua a arrumação das contas públicas.
O que vem pela frente: janela de oportunidade
O lado positivo é que os efeitos da reforma tributária sobre consumo devem começar a aparecer no próximo ciclo, aliviando a pressão por arrecadação extraordinária. Há, ainda, uma janela política rara: a chance de fazer o ajuste duro no início do mandato, sem o fantasma de ruptura institucional que paralisou tentativas anteriores — desde que as forças democráticas mantenham o extremismo isolado.
O que observar daqui para frente
O investidor e o gestor devem monitorar três vetores: a velocidade da taxação dos fundos imobiliários e de infraestrutura no Congresso, a disposição do Executivo para enfrentar supersalários e emendas, e a sinalização do Tesouro sobre a mudança no perfil da dívida. A combinação desses movimentos ditará se a Selic inicia trajetória de queda sustentada ainda este ano — ou se o custo de capital segue travando o investimento produtivo.
