Economia

R$ 32 bi em isenções escondidas: o ajuste que Faria Lima não quer que você veja…

Gráfico mostra R$ 32 bilhões em isenções fiscais ocultas no orçamento federal brasileiro
Estudo revela R$ 32 bi em isenções tributárias não transparentes que pressionam o ajuste fiscal e a Selic.

O governo Lula venceu a eleição defendendo programas sociais, mas por pouco não perdeu o pleito devido à combinação letal de juros altos e inflação — fenômeno que derruba popularidades mundo afora no pós-pandemia. O desafio agora é conciliar o que garantiu a vitória com o que quase custou o cargo.

O nó fiscal que aperta a Selic

Para derrubar os juros, a dívida pública precisa parar de crescer. Como o endividamento depende da taxa Selic e juros menores aceleram o PIB, a relação dívida/PIB melhora pelas duas pontas simultaneamente. A conta, porém, não fecha sem mexer em privilégios tributários blindados há décadas.

O “buraco” de R$ 32 bilhões que ninguém comenta

Segundo levantamento de Bráulio Borges publicado em julho de 2026, a isenção de impostos sobre ativos financeiros — LCA, LCI, CRI, CRA e debêntures incentivadas — tirou R$ 32 bilhões dos cofres públicos apenas no último ano. Esses títulos subsidiados competem diretamente com a dívida soberana, forçando o Tesouro a pagar mais caro para se financiar.

  • LCAs e LCIs: isenção total de IR para pessoa física
  • CRIs e CRAs: imunes a impostos sobre rendimentos
  • Debêntures de infraestrutura: benefício estendido a grandes investidores

Eliminar esse subsídio é o ponto de partida mais óbvio — e politicamente mais sensível — para qualquer ajuste sério.

Gasto procyclical: o Brasil faz o oposto do manual

Se o corte nas isenções e em “gastos ruins” (supersalários, emendas parlamentares inchadas) não bastar, a próxima camada são as vinculações orçamentárias das políticas sociais. A regra continuaria existindo, mas desenhada para ser anticíclica: hoje, o gasto público sobe na bonança e cai na recessão, jogando sobre a Selic todo o peso de regular a economia.

Essa redesign preservaria o aumento real do salário mínimo e demais promessas de campanha, mas exigiria coragem política para enfrentar lobbies organizados.

Dívida indexada à Selic: um risco desproporcional

Economistas como Monica de Bolle apontam que o Brasil carrega uma fatia anormalmente alta de títulos pós-fixados no estoque da dívida — bem acima da média global. Tornar o endividamento menos sensível a choques de juros é um debate técnico legítimo, ainda que complexo.

A proposta de Lara Resende e por que ela travou

Na semana passada, discutiu-se a sugestão de André Lara Resende de alterar a formação da taxa de juros. A conclusão foi negativa: o modelo pressupõe um conselho econômico superpoderoso, politicamente inviável e arriscado. O desenho expunha o país a uma crise cambial que as reservas atuais não cobririam — e, ironicamente, ainda exigiria o mesmo ajuste fiscal que se tenta evitar.

O que observar daqui para frente

O lado positivo é que os efeitos da reforma tributária aprovada no terceiro mandato devem começar a aparecer no quarto. Diferente de 2023, Lula tem espaço para iniciar ajustes no começo do governo sem o temor paralisante de que uma queda momentânea de popularidade abra brecha para rupturas institucionais — desde que a direita convencional isole o golpismo de vez.

Não será fácil. Mas pela primeira vez em anos, a saída não depende de quem quebrou o Paraguai para nos “salvar”.