A LVMH viu seu valor de mercado derreter para 213 bilhões de euros, apagando quase toda a valorização conquistada durante o boom pós-pandemia que a levou aos 500 bilhões de dólares. O tombo ocorre apesar de um lucro recorde de 17,8 bilhões de euros em 2023, 50% acima do pré-Covid.
O grupo dono da Louis Vuitton e Dior voltou a valer o mesmo que em janeiro de 2020. A discrepância entre resultado operacional e cotação expõe uma mudança estrutural: o mercado não paga mais pelo lucro presente, mas pela incerteza do consumidor futuro.
O fim do consumidor “aspiracional”
A retração começou há três anos, quando a inflação corroeu o poder de compra da classe média — o motor de volume do setor. Segundo a Bain, 60 milhões desses compradores “aspiracionais” (15% da base total) sumiram desde 2019.
As marcas podem ter acelerado o êxodo. Preços de itens-chave subiram entre 50% e 70% no período, empurrando o cliente de entrada para fora das butiques. Gestores ouvidos pelo mercado resumem: o consumidor de alto patrimônio segue comprando, mas ele não sustenta sozinho a máquina da LVMH.
Por que a ação cai mais que o lucro
Flavio Cereda, da GAM, aponta que a LVMH virou “proxy” de aposta no sentimento da classe média global. Fundos hedge usam o papel para girar posição no setor todo, ampliando a volatilidade. Quando o otimismo some, a venda é mecânica e desproporcional.
Some-se a isso a sucessão. Bernard Arnault, 77 anos, comanda a empresa e controla a maioria acionária. Em abril, disse aos acionistas que a discussão sobre herdeiros volta “daqui a sete ou oito anos”. Para Christopher Rossbach (J Stern & Co.), a indefinição sobre governança futura pesa no valuation hoje.
China fraca e a fuga para joias
O motor chinês, responsável pela década de ouro do luxo, engasgou. Crise imobiliária e bolsa fraca frearam o apetite local por bolsas e roupas. Mas nem todo o portfólio sangra igual.
- Hermès e Brunello Cucinelli — focadas no topo da pirâmide — seguram cotações.
- Kering (Gucci) e Burberry — em reestruturação — lideram perdas.
- Richemont (Cartier, Van Cleef) — alta de 28% em seis meses, valor acima de 100 bi de euros.
Joias roubam a cena. Federico Marchetti, veterano do setor, explica: com bolsas a 7 mil euros, o cliente prefere uma joia de 10 mil. É ativo percebido como investimento, não gasto. Tiffany e Bvlgari, da LVMH, surfam essa onda, mas não compensam a fraqueza nas categorias de volume.
Sinais de fundo do poço?
Dados recentes dos EUA e Coreia do Sul mostram recuperação do gasto em luxo após altas nas bolsas locais. A correlação é direta: “Assim que as pessoas sentem que têm dinheiro, elas gastam”, resume Cereda.
A retração é cíclica, não estrutural. Mas o ciclo atual é alongado por geopolítica, juros altos e uma sucessão não resolvida. O prêmio de “empresa mais valiosa da Europa” foi para a conta do passado. O futuro depende de quantos daqueles 60 milhões de clientes voltam — e quando.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo trimestre: 1) Recuperação real do varejo chinês, não apenas estímulo oficial; 2) Ritmo de queda de juros globais, que devolve “sensação de bem-estar” à classe média; 3) Qualquer sinal concreto sobre governança pós-Arnault. Enquanto isso, a ação segue refém do humor de curto prazo — e do bolso do consumidor aspiracional.
