Benjamin Steinbruch deixará o comando executivo da CSN depois de 22 anos à frente da siderúrgica. A troca, anunciada nesta quarta-feira (2), coloca Fabio Schvartsman — ex-CEO da Vale e da Klabin — no posto principal. A mudança acontece no mesmo momento em que a empresa acelera um plano de venda de ativos para reduzir a alavancagem financeira.
Steinbruch não sai de cena: assume a presidência do conselho de administração, vaga desde 2023. Mas a gestão do dia a dia passa para um executivo com histórico de reestruturação em grandes conglomerados. A pergunta que fica é se a nova liderança conseguirá entregar a desalavancagem prometida sem perder ritmo operacional.
O que muda na prática a partir de agora
A transição é imediata. Schvartsman herda uma companhia que fatura em múltiplas frentes — mineração, siderurgia, cimento, logística e energia — mas carrega um endividamento que preocupa investidores. O mandato central, segundo o próprio Steinbruch, é preparar a estrutura de capital para “outros 33 anos” de competitividade global.
Os números do plano de desinvestimento dão a dimensão do desafio:
- US$ 2,9 bilhões (cerca de R$ 14,7 bi) em vendas programadas
- Foco em participações nos negócios de cimento e infraestrutura
- Meta declarada: redução do índice de endividamento (dívida líquida/EBITDA)
Perfil do novo CEO: experiência em turnaround
Schvartsman não é novato em reestruturações complexas. Comandou a Klabin antes de assumir a Vale em 2017, onde ficou até 2019 — sua saída ocorreu após o rompimento da barragem de Brumadinho. Mais recentemente, integrou o conselho da Vibra Energia. O currículo sinaliza foco em disciplina de capital e gestão de risco, dois pontos sensíveis para a CSN hoje.
Steinbruch foi direto ao descrever a expectativa: “Temos que preparar a estrutura da empresa para a nova realidade mundial de competitividade”. A fala sugere que o modelo atual de alocação de capital será revisto, com provável prioridade para ativos de maior retorno e geração de caixa.
Impacto nos negócios: o que fica, o que pode sair
A CSN é hoje a segunda maior exportadora de minério de ferro do Brasil e controla a segunda maior cimenteira nacional. Tem operações na Alemanha, Espanha, Portugal e EUA. A diversificação geográfica e setorial foi construída sob Steinbruch, mas também elevou a complexidade da gestão de portfólio.
A venda de fatias em cimento e infraestrutura indica que a empresa pode estar disposta a abrir mão de posições de liderança em segmentos não essenciais para fortalecer o balanço. Investidores devem monitorar:
- Quais ativos específicos entram no pacote de US$ 2,9 bi
- Prazo de conclusão das transações
- Destino dos recursos: amortização de dívida ou reinvestimento
Governança: continuidade com nova dinâmica
Steinbruch no conselho garante continuidade estratégica e preserva o conhecimento institucional. Porém, a separação entre presidência executiva e presidência do conselho — prática recomendada por códigos de governança — agora se concretiza na prática. Schvartsman terá autonomia operacional, mas precisará alinhar decisões de grande porte com o acionista controlador.
O comunicado oficial reforça que “toda a estrutura fica igual” no curto prazo. A frase funciona como sinal de estabilidade para equipes e fornecedores, mas não impede ajustes organizacionais nos próximos trimestres.
O que observar nos próximos meses
A combinação de novo CEO, conselho ativo do fundador e plano agressivo de venda de ativos cria um cenário de execução de alto risco e alto retorno. Três indicadores dirão se a estratégia funciona:
- Evolução da razão dívida líquida/EBITDA a cada divulgação trimestral
- Velocidade de fechamento dos deals de cimento e infraestrutura
- Margens operacionais dos negócios remanescentes sob nova gestão
Para quem acompanha o setor, a CSN deixa de ser “a empresa do Steinbruch” para virar um caso de teste: um grande grupo industrial brasileiro consegue se reinventar via gestão profissionalizada e desinvestimento seletivo? A resposta começa a ser escrita agora.
