O economista Tiago Cavalcanti, professor titular em Cambridge, avisa: não existem atalhos para equilibrar as contas públicas e derrubar os juros no Brasil. O caminho, segundo ele, é um ajuste fiscal gradual e crível — começando pelo anúncio imediato de uma equipe econômica comprometida com a sustentabilidade da dívida.
Mas qual o preço de ignorar esse conselho? A resposta passa pelo câmbio, pela inflação e pelo bolso de quem investe ou empreende no país.
O medo dos atalhos e a lição da Turquia
Cavalcanti teme que, sem ancoragem rápida das expectativas, o governo busque “atalhos” para brigar com o mercado — uma estratégia que, historicamente, termina mal. Ele cita o exemplo turco: pressão política para derrubar juros rapidamente levou à hiperinflação em tempo recorde.
Outro caso recente é o do Reino Unido. Liz Truss anunciou cortes de impostos com dívida e déficit crescentes, apostando que o crescimento pagaria a conta. O mercado reagiu mal, ela recuou tarde demais e renunciou em semanas.
O recado é claro: credibilidade se constrói com sinais concretos, não com discursos.
Por que a equipe econômica decide o câmbio (e seus custos)
Expectativas desancoradas fazem investidores apostarem contra o país: tiram dinheiro, depreciam o real e elevam a inflação de curto prazo. Isso força juros longos mais altos, travando investimentos.
Para evitar esse ciclo, Cavalcanti propõe dois passos imediatos:
- Anunciar o Ministério da Fazenda com nomes que o mercado confie — seja Rafael Fonteles, Geraldo Alckmin ou um técnico de carreira.
- Preencher as duas diretorias vagas do Banco Central, sinalizando independência e compromisso com a meta de inflação.
“Escutar o mercado, sem ser refém dele”, resume o economista.
A regra do salário mínimo que ninguém quer tocar
Lula prometeu manter reajustes acima da inflação sempre que a economia crescer. Cavalcanti alerta: isso pesa sobre 40% dos gastos primários da União (aposentadorias, pensões do INSS, BPC).
O diagnóstico:
- Recompor o poder de compra (reajuste pela inflação) é compatível com o ajuste.
- Ganhos reais permanentes, porém, tornam a trajetória da dívida insustentável enquanto as contas não fecharem.
A sugestão: adotar regra flexível, estilo Reino Unido — a cada ano, define-se o reajuste conforme o espaço fiscal disponível.
Juros a 13,75%: o dilema entre crescer e estourar a dívida
Com Selic a 13,75% (juros reais ~9%), o custo da dívida pública explode. Para estabilizar a relação dívida/PIB, a economia precisaria crescer 2 a 3 vezes mais que o ritmo atual — cenário improvável.
Por outro lado, a proposta de André Lara Resende (queda rápida para 7,5% em 12 meses via novo Conselho Fiscal-Monetário) carece de evidência empírica sólida, segundo Cavalcanti. “Me mostre onde isso funcionou de forma consistente”, desafia.
O ministro Dario Durigan já descartou a ideia.
O que 2003 ensina sobre 2023
Cavalcanti prefere o paralelo com o primeiro mandato de Lula, não com 2014. Em 2003, compromissos macroeconômicos assumidos antes da posse ancoraram expectativas e permitiram ajuste gradual.
A receita repetida: metas críveis de longo prazo, suavizando o corte ano a ano, sem estelionato eleitoral — cortar subsídios tributários e fechar “loopholes” no Imposto de Renda preserva saúde, educação e assistência social.
O que observar daqui pra frente
Três sinais dirão se o governo escolhe o caminho da credibilidade ou o dos atalhos:
- Velocidade e perfil dos nomes para Fazenda e BC.
- Disposição para rever a indexação automática do salário mínimo acima da inflação.
- Aparição de metas fiscais plurianuais com trajetória clara de queda da dívida/PIB.
Enquanto isso não vem, o câmbio segue sensível, a curva de juros longa pressionada e o custo de capital para empresas e famílias, elevado. Quem acompanha de perto sabe: no Brasil, expectativa não é detalhe — é variável de decisão.
