Economia

China vai cortar importações de soja em 25%? O risco que o agro brasileiro ignora

Navio graneleiro carregando soja em porto brasileiro com bandeira da China ao fundo
Exportação de soja do Brasil para a China enfrenta risco de queda de 25% até 2030

A China, maior compradora mundial de soja, projeta reduzir suas importações em cerca de 25% até 2030. Para o Brasil, que enviou 64 milhões de toneladas ao país asiático apenas no último ano, o sinal de alerta está ligado — mas a ameaça não vem apenas da concorrência com os Estados Unidos.

Três forças estruturais movem esse cenário: um acordo bilateral com Washington, um plano agressivo de autossuficiência e uma mudança demográfica irreversível. Entender como elas se cruzam define se o produtor brasileiro colhe lucro ou prejuízo na próxima década.

O acordo que reabre espaço para os EUA

Em 2024, China e Estados Unidos fecharam um compromisso: 25 milhões de toneladas de soja norte-americana por ano entre 2026 e 2028, além de US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas. O volume não é inédito — os EUA já venderam patamares semelhantes antes da guerra comercial —, mas a tarifa de 13% mantida sobre o grão americano (contra 3% do Brasil) preserva, por ora, a vantagem competitiva brasileira.

Especialistas divergem sobre o impacto real. Para Larissa Wachholz, analista de relações sino-brasileiras, a manutenção da tarifa sinaliza cautela: a relação estabilizou, mas não se normalizou. Já Lucas Costa Beber, da Aprosoja-MT, considera improvável que os EUA superem 30 milhões de toneladas anuais. O risco, diz Wachholz, está em Pequim decidir comprar acima do combinado, usando o mercado como alavanca geopolítica.

A ameaça silenciosa: autossuficiência planejada

O perigo mais profundo não vem de Washington, mas do Plano Quinquenal chinês. A meta é clara: produzir mais alimentos em casa. Em 40 anos, a produtividade da soja na China saltou 80% graças a investimentos pesados e políticas públicas. Agora, o alvo é reduzir a inclusão de farelo de soja nas rações de 14,5% para menos de 10% até 2030.

Segundo a consultoria Systemiq, isso equivale a cortar 23,5 milhões de toneladas de importações — volume idêntico a tudo o que os EUA venderam à China em 2024, ou um terço do que o Brasil embarcou. A estratégia combina três frentes:

  • Eficiência na conversão alimentar de bovinos e frangos;
  • Incentivo a proteínas alternativas, sobretudo pescados;
  • Adoção de aminoácidos sintéticos e proteínas bacterianas nas rações.

Patrícia Ellen, da Systemiq, classifica esse vetor como “risco maior” do que a concorrência comercial. A velocidade de execução, porém, permanece incerta. Wachholz ressalta que o uso de transgênicos poderia acelerar ganhos de produtividade interna chinesa — algo que o Brasil deve monitorar anualmente.

Demografia: o fator que ninguém controla

Além da tecnologia, a China encolhe. A taxa de natalidade em queda projeta uma população menor nos próximos anos, reduzindo a demanda por proteínas animais e, em cascata, por soja. Para Beber, esse é o “maior risco de todos”: não há acordo comercial ou inovação agrícola que reverta uma curva demográfica.

O sorgo, já amplamente usado na alimentação animal chinesa, também compete com o farelo de soja. E ironicamente, a produção de aminoácidos sintéticos consome derivados de soja e milho — o que pode abrir nichos, mas não compensa a queda volumétrica bruta.

O que o Brasil deve fazer agora

A recomendação unânime entre especialistas: não expandir a área plantada além do que a demanda real sustenta. Criar excedente sem comprador certo pressiona preços e desvaloriza terras. Três caminhos práticos surgem:

  • Agregar valor: biocombustíveis, óleo e derivados industriais absorvem grão e pagam prêmios;
  • Diversificar destinos: a Índia, com população crescente e busca por proteínas de menor carbono, surge como alternativa estratégica;
  • Estimular demanda interna: incentivos fiscais ao biodiesel e ao renovável no Brasil travam o grão no mercado doméstico.

Wachholz vê espaço para parcerias tecnológicas: sementes, biotecnologia, maquinário. O tamanho do mercado brasileiro atrai investimento chinês que pode elevar a competitividade local. Beber reforça: a transição global para proteínas e baixa emissão beneficia quem produz soja e milho com eficiência tropical.

O que observar daqui para frente

Três indicadores ditam o ritmo: a taxa real de adoção de transgênicos na China, o cumprimento (ou extrapolação) das 25 milhões de toneladas dos EUA e a curva de natalidade chinesa. O produtor que alinhar expansão a esses sinais — e não ao recorde de exportação do ano passado — protege margem e patrimônio. O mercado chinês não vai desaparecer, mas vai se tornar mais seletivo, mais tecnológico e menor. Quem antecipar a transição colhe; quem apostar no status quo, paga a conta.