Economia

Você não vai acreditar: R$ 1 bi de Itaipu ‘presos’ no Ueno Bank

Sede da Itaipu Binacional com gráfico de R$ 1 bilhão retido no Ueno Bank no Paraguai
Itaipu Binacional confirma R$ 1 bilhão travados no Ueno Bank após resolução do Banco Central paraguaio.

A margem paraguaia da Itaipu Binacional mantinha o equivalente a R$ 1 bilhão depositados no Ueno Bank no exato dia em que o Banco Central do Paraguai decretou a resolução da instituição. O valor real, revelado apenas neste sábado (7), é onze vezes maior que a média histórica divulgada semanas antes.

A binacional confirmou 115,2 bilhões de guaranis e US$ 163,8 milhões travados na instituição desde 3 de novembro. A discrepância abre uma crise de transparência justamente quando o ex-presidente Santiago Peña é preso preventivamente por suspeita de lesão de confiança no mesmo caso.

O tamanho real do buraco: dados que não batiam

Em 13 de outubro, após pressão da imprensa local, a usina havia informado apenas a média dos últimos três anos: US$ 49,8 milhões e 27,7 bilhões de guaranis. O silêncio entre 3 e 5 de novembro, quando o banco já estava fechado, alimentou suspeitas.

O comunicado oficial no X (antigo Twitter) admite agora a exposição total de US$ 182 milhões. Isso representa 7,6% de tudo que entrou no Paraguai como remessas do Brasil entre 2024 e 2026 — período de caixa recorde graças à nova divisão de recursos entre as duas margens.

  • Em guaranis: 115,2 bilhões (≈ R$ 101,3 milhões)
  • Em dólares: US$ 163,8 milhões (≈ R$ 901,7 milhões)
  • Total consolidado: ≈ R$ 1,003 bilhão

A ligação direta com a queda de Peña

A relação com o Ueno começou em janeiro de 2025, já na gestão Peña. Na sexta-feira (6), ele sofreu impeachment; no sábado, teve a prisão preventiva decretada. A investigação aponta lesão de confiança e administração em proveito próprio.

Itaipu afirma ter acionado a Promotoria-Geral do Estado e acompanha o processo de liquidação do BCP. Não há, contudo, estimativa de quanto será recuperado nem em qual prazo. A binacional garante que aplica apenas em bancos com rating AAApy ou AApy e que a gestão de caixa rendeu US$ 450 milhões no triênio.

Margem brasileira se isenta; atividades seguem normais

Em nota separada, a administração brasileira frisou: não há um centavo sob sua gestão no Ueno. Cada lado decide suas aplicações de forma autônoma. “Esta situação não afeta o desenvolvimento normal das atividades da Itaipu Binacional”, diz o texto.

Os recursos paraguaios envolvem receitas da Ande (estatal de energia) e transferências internas para cumprir contratos e convênios. A exposição da usina é cerca de 11 vezes a do fundo de pensão dos empregados (Cajubi), que declarou R$ 86 milhões em depósitos mais R$ 14 milhões em títulos do Grupo Vázquez, controlador do banco.

O que observar daqui para frente

O desenlace depende do processo de resolução do BCP, que prevê transferir depósitos para outras instituições e liquidar o passivo restante. Para o investidor, três pontos merecem monitoramento contínuo: a velocidade da justiça paraguaia no bloqueio de ativos do Grupo Vázquez, a capacidade de caixa da margem paraguaia honrar compromissos sem esses recursos e eventuais reflexos na renegociação do Anexo C do tratado, prevista para 2026. A transparência tardia cobra seu preço: a confiança do mercado, uma vez quebrada, não se recompõe em comunicados de fim de semana.