O fundo de aposentadoria dos servidores públicos do Paraguai está praticamente falido após a exposição de cerca de US$ 60 milhões na crise do Ueno Bank. A denúncia partiu da principal federação de professores do país, que convocou greve nacional a partir da próxima segunda-feira. O rombo ameaça o pagamento de pensões e trava a aposentadoria de milhares de trabalhadores.
O tamanho do buraco nos cofres públicos
Dados oficiais do Ministério da Economia confirmam a gravidade da exposição. A Caixa Fiscal, regime previdenciário dos servidores, tem US$ 40 milhões em certificados de depósito de poupança no banco, acrescidos de US$ 19,8 milhões em juros ainda não recebidos.
A situação do Instituto de Previdência Social (IPS) é ainda mais volumosa: cerca de US$ 278,4 milhões aplicados na instituição. Somados, os valores superam a casa dos US$ 330 milhões presos na instituição financeira.
Existe uma rede de proteção — o Fondo de Garantía de Depósitos (FGD), similar ao FGC brasileiro —, mas ela tem teto. A cobertura limita-se a 75 salários mínimos por pessoa e por instituição, incluindo capital e juros. Para fundos de pensão com centenas de milhões em jogo, a garantia cobre apenas uma fração minúscula do prejuízo.
Greve geral e o medo de quem já se aposentou
A resposta sindical foi imediata. A Federação de Educadores do Paraguai (FEP) anunciou a paralisação das aulas na rede pública a partir de segunda-feira (9). O presidente da entidade, Silvio Piris, classifica a situação como “inaceitável”, lembrando que a categoria contribui com 3% a mais para o fundo justamente para garantir solvência.
- Exigência de garantias para recuperação dos US$ 350 milhões do IPS;
- Agilização dos processos de aposentadoria já aprovados;
- Suspensão das atividades até que haja resposta concreta do governo.
“Os aposentados são os mais afetados, porque não sabem por quanto tempo continuarão recebendo”, afirmou Piris. A incerteza sobre o ritmo das devoluções coloca em xeque a regularidade dos benefícios no curto prazo.
A teia política que derrubou o banco
O escândalo extrapolou o balanço contábil e derrubou o governo. O ex-presidente Santiago Peña foi preso na sexta-feira (6), após o Congresso aprovar seu impeachment. A investigação aponta que Peña era investidor da holding controladora do Ueno e, em 2023, nomeou o então CEO do banco, Carlos Carvallo, para presidir o Banco Central do Paraguai.
Carvallo renunciou ao comando do BC nesta semana e também teve ordem de prisão expedida. A crise eclodiu quando o índice de solvência da instituição despencou para 5,56% — menos da metade dos 12% exigidos pela regulação local.
Falhas de gestão e empréstimos suspeitos
Relatórios de investigação identificaram uma cadeia de irregularidades na origem do colapso. Entre os principais achados estão:
- Falhas graves na avaliação de risco de crédito;
- Inconsistências nas informações financeiras usadas para aprovar empréstimos;
- Operações vultosas com empresas ligadas aos acionistas controladores do banco.
O próprio Carvallo, em declarações anteriores, confirmou que empréstimos foram concedidos a empresas do grupo controlador. Esse conflito de interesses é o cerne da apuração que agora mira a alta cúpula política e financeira do país.
O que observar daqui para frente
O desenrolar das próximas semanas definirá a capacidade de pagamento dos benefícios. Três frentes merecem atenção redobrada de investidores e observadores internacionais:
- Liquidação do FGD: O cronograma e a efetividade do pagamento da garantia (limitada a 75 salários mínimos) ditarão o fluxo de caixa imediato da Caixa Fiscal.
- Desdobramento da greve: A adesão dos professores e a eventual expansão para outras categorias do funcionalismo pressionarão o caixa do Tesouro.
- Recuperação de ativos do IPS: A tentativa de reaver os US$ 278 milhões aplicados no banco determinará a solvência do regime geral de previdência nos próximos anos.
Enquanto a justiça avança sobre os responsáveis, o servidor público paraguaio — ativo ou inativo — carrega o peso de uma crise que mistura gestão temerária e interferência política direta no sistema financeiro.
