O empresário Luciano Hang defendeu publicamente o presidente paraguaio Santiago Peña poucas horas antes de ele sofrer impeachment e ser preso por envolvimento no escândalo do Ueno Bank. A nota, publicada no X às 17h de sexta-feira (6), chamava o Paraguai de “referência em liberdade econômica” — horas depois, as instituições do país derrubavam o próprio chefe de Estado.
O episódio expõe uma narrativa que vinha sendo vendida a investidores brasileiros há meses: a de um refúgio tributário e ideológico ao lado da fronteira. Mas a crise bancária paraguaia, comparada ao caso Master no Brasil, levanta dúvidas sobre a solidez desse discurso.
O timing que chama a atenção
Hang se reuniu com Peña em julho de 2026, durante visita oficial a Assunção. Na ocasião, anunciou planos de abrir a primeira megaloja da Havan no país e condicionou a velocidade de expansão da rede no Brasil ao resultado das eleições presidenciais.
Em setembro, o Ministério Público do Trabalho em Goiás moveu ação civil pública contra o empresário por suposto assédio eleitoral a funcionários. A defesa do modelo paraguaio, portanto, não era apenas retórica — havia dinheiro e estratégia corporativa em jogo.
Como a “fuga para o Paraguai” foi arquitetada
Uma rede coordenada de influenciadores e portais bolsonaristas passou 2026 promovendo a migração de empresas e patrimônios. O documentário “Paraguai: O Destino Inesperado”, da Brasil Paralelo, estreou em 26 de outubro — oito dias antes da intervenção no Ueno Bank.
O filme contou com Raúl Latorre, presidente da Câmara dos Deputados e dirigente do Partido Colorado (mesma sigla de Peña), defendendo segurança jurídica e propriedade privada. A produtora disponibilizou o conteúdo gratuitamente no YouTube.
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O escândalo que derrubou a narrativa
O Ueno Bank operava esquema de captação irregular e lavagem de dinheiro, segundo o Ministério Público paraguaio. A instituição foi intervencionada em 3 de novembro. No dia 6, o Senado aprovou impeachment de Peña por 23 votos a 11, e a Justiça decretou prisão preventiva do ex-presidente — recolhido a um quartel militar.
Manifestações populares tomaram as ruas de Assunção. O caso ganhou o apelido de “Master paraguaio” pela semelhança com a quebra do banco brasileiro em 2024, que deixou 30 mil credores lesados.
O que Hang disse — e o que omitiu
Na nota, o empresário catarinense afirmou que “escândalos acontecem em qualquer lugar” e que “as instituições paraguaias são fortes”. Confirmou, porém, que segue “procurando um terreno em Assunção para construir nossa primeira megaloja”.
Não mencionou que a promotoria investiga se recursos do Ueno Bank financiaram campanhas do Partido Colorado — incluindo a de Peña. Tampouco citou que a Brasil Paralelo removeu o documentário do ar após a explosão do caso.
Lições para quem olha o vizinho como refúgio
Três pontos ficam claros para o investidor atento:
- Estabilidade regulatória não se compra com discurso: o arcabouço jurídico paraguaio permitiu a intervenção bancária e o impeachment em tempo recorde — sinal de instituições funcionando, mas também de risco político agudo.
- Incentivos fiscais atraem, mas não blindam: o regime de maquila e a tributação reduzida existem, mas dependem de legislação que pode mudar com maiorias congressuais voláteis.
- Narrativas ideológicas mascaram due diligence: a onda de conteúdos patrocinados tratava compliance como detalhe secundário.
O que observar nos próximos 90 dias
A investigação do Ministério Público paraguaio deve alcançar financiadores de campanha e possíveis beneficiários de operações do Ueno Bank. No Brasil, a Receita Federal monitora estruturas de planejamento tributário que usaram o país vizinho como base.
Para o empresário que considerou seguir o conselho dos influenciadores: a janela de oportunidade não fechou, mas o preço da entrada subiu — e agora inclui advogados especializados em direito penal transfronteiriço, não apenas contadores de impostos.
