O empresário Luciano Hang publicou uma defesa enfática ao presidente paraguaio Santiago Peña na tarde de sexta-feira (6). Horas depois, o Senado aprovou o impeachment e a Justiça decretou a prisão do mandatário, suspeito de envolvimento no escândalo do Ueno Bank. A coincidência expõe a fragilidade do discurso que vendia o país vizinho como porto seguro para capital e ideologia brasileiros.
Hang, conhecido como “véio da Havan”, classificou o Paraguai como “referência em liberdade econômica e conservadorismo nos costumes”. A nota foi ao ar por volta das 17h. À noite, Peña já era ex-presidente e detido em unidade militar. O episódio levanta uma questão incômoda: até que ponto a blindagem ideológica cega a análise de risco jurisdicional?
O cronograma que derruba a narrativa
A sequência de fatos é implacável. Pela manhã, a imprensa paraguaia noticiava o avanço do pedido de impeachment. Às 17h, Hang divulgava o texto no X (antigo Twitter), minimizando: “infelizmente, escândalos acontecem em qualquer lugar do mundo”. Às 20h, o Senado votava a destituição por 42 votos a 2. Minutos depois, o Ministério Público confirmava a prisão preventiva.
O empresário catarinense esteve em Assunção em julho, reunido com Peña e ministros. Na ocasião, confirmou a intenção de erguer a primeira “megaloja” da Havan fora do Brasil. “Sigoprocurando um terreno”, reiterou na nota de sexta. O investimento, estimado em dezenas de milhões de reais, agora depende de um governo interino e de um sistema financeiro sob intervenção.
Ueno Bank: o “Master” paraguaio que assusta investidores
O escândalo que derrubou Peña tem paralelos diretos com o caso Master no Brasil. O Ueno Bank, instituição de médio porte, teria operado como uma “lavanderia” de recursos públicos e privados, com ramificações no setor imobiliário e no agronegócio. A intervenção do Banco Central do Paraguai ocorreu em 2 de novembro.
Dados preliminares da investigação apontam:
- R$ 1,2 bilhão em operações suspeitas rastreadas até o momento.
- 14 mandados de prisão expedidos contra diretores, advogados e operadores políticos.
- Bloqueio de 47 contas vinculadas a empresas de fachada.
A semelhança com o colapso do Banco Master em 2024 — que deixou credores brasileiros no prejuízo — não é coincidência. Auditores internacionais alertavam desde 2023 para a fragilidade da regulação paraguaia em lavagem de dinheiro. O “paraíso fiscal” vendido por influenciadores omite a contrapartida: supervisão frouxa e risco sistêmico elevado.
A máquina de vender o “novo lar” ideológico
A defesa de Hang não é isolada. Uma rede articulada de produtores de conteúdo, portais e assessorias migratórias construiu, nos últimos 18 meses, a imagem do Paraguai como “último bastião da liberdade” para conservadores brasileiros insatisfeitos com o governo Lula.
O documentário Paraguai: O Destino Inesperado, da Brasil Paralelo, estreou em 26 de outubro — oito dias antes da intervenção no Ueno Bank. O filme traz Raúl Latorre, presidente da Câmara e aliado de Peña, exaltando segurança jurídica e propriedade privada. Canais como Primo Rico (Thiago Nigro), Bruno Perini e Gêmeos Investem publicaram comparações tributárias e roteiros de “fuga patrimonial”.
Por trás da cortina, empresas de consultoria migratória faturam alto. A Imigra Paraguai, ligada ao portal Conexão Política, oferece pacotes de residência fiscal e abertura de empresas a partir de US$ 3.500. A promessa: impostos baixos (10% no IRPJ), custo de vida reduzido e “valores cristãos”. A realidade omitida: instabilidade política crônica (6 presidentes em 10 anos), infraestrutura logística deficitária e judiciário suscetível a pressões do Partido Colorado, no poder há 70 dos últimos 75 anos.
Vozes dissonantes e o custo da omissão
Nem todos embarcaram. O youtuber Filipe Boni publicou análise crítica em setembro, alertando para a “armadilha da tributação territorial”: renda gerada no Brasil continua tributada aqui, mesmo com residência no Paraguai. O alerta foi ignorado pela onda de otimismo.
Para Hang, o revés vai além do imóvel em Assunção. Em setembro, o Ministério Público do Trabalho em Goiás moveu ação civil pública por assédio eleitoral, alegando que o empresário condicionou expansão da Havan e empregos ao resultado das urnas. A defesa de um presidente caído por corrupção bancária fragiliza ainda mais a imagem institucional da varejista junto a acionistas minoritários e fornecedores.
O que observar daqui para frente
O vice-presidente Pedro Alliana assume interinamente. O Partido Colorado controla o Congresso e o Judiciário, o que sugere continuidade na política econômica — mas também blindagem nas investigações. Para o empresário brasileiro, três variáveis definem o próximo movimento:
- Desfecho do Ueno Bank: se houver contágio sistêmico, o crédito ao consumo (motor do varejo) travará.
- Reação do BC paraguaio: novas regras de compliance podem encarecer a abertura de filiais.
- Clima social: protestos em Assunção pedem renúncia de todo o comando do Colorado. Instabilidade de rua afeta logística e segurança.
A lição imediata: alinhamento ideológico não substitui *due diligence* política e regulatória. Quem apostou fichas no “refúgio” baseando-se em discursos de YouTube e notas de aliados viu o castelo de areia desmoronar em menos de cinco horas. O próximo relatório de risco-país do Paraguai, previsto para dezembro, deve incorporar o prêmio de instabilidade. Quem tem capital exposto lá, ou planeja expor, precisa ler as entrelinhas — não os press releases.
