O Brasil fechou outubro com superávit comercial de US$ 9,3 bilhões, o maior para o mês em toda a série histórica iniciada em 1989. O motor por trás do número é uma explosão nas vendas de petróleo bruto que pegou analistas de surpresa. Mas a commodity energética não explica tudo sozinha.
Foram US$ 37,8 bilhões em exportações totais contra US$ 28,4 bilhões em importações — ambos recordes absolutos para o décimo mês do ano. O saldo representa alta de 39,4% frente a outubro de 2023 e superou levemente a mediana das projeções do mercado, que girava em torno de US$ 9 bilhões.
Petróleo vira protagonista absoluto da pauta
O salto da commodity foi o grande diferencial. Em valor, os embarques de óleo bruto avançaram 122,6% na comparação anual; em volume, a alta foi de 62,9%. O produto consolidou-se como o principal item da pauta exportadora, acumulando US$ 51,5 bilhões nos primeiros dez meses de 2024.
Essa avalanche de barris redesenhou o mapa de destinos das vendas brasileiras:
- Estados Unidos: compras dispararam 87%, com combustíveis respondendo por mais da metade do crescimento; participação subiu de 7,3% para 11,4%.
- União Europeia: alta de 32%, elevando a fatia do bloco de 14,5% para 16%.
Por que o mundo está comprando mais do Brasil
A explicação passa por uma “tempestade perfeita” de oferta restrita e demanda aquecida. A produção no Golfo Pérsico segue abaixo do pré-conflito no Irã, enquanto os estoques estratégicos dos EUA permanecem aquém da média histórica. Resultado: o Brent saltou de US$ 102 em setembro para US$ 107,9 em outubro.
O diretor de estatísticas do Mdic, Herlon Alves Brandão, resume o cenário: o Brasil consolidou-se como fornecedor confiável de energia justamente quando o mercado global mais precisa. O acordo comercial com a UE, que prevê redução tarifária progressiva, também começa a surtir efeito nas exportações europeias.
Medida doméstica tenta segurar abastecimento interno
Paralelamente ao boom externo, a Camex prorrogou até 31 de dezembro a alíquota de 12% do Imposto de Exportação sobre óleos brutos. O objetivo declarado é garantir matéria-prima para as refinarias nacionais e evitar desabastecimento do mercado interno em meio à euforia exportadora.
Agro e indústria de transformação também crescem
Não foi só petróleo. A agropecuária expandiu embarques em 12,8%, puxada por soja e café não torrado. A indústria de transformação subiu 7,7%, com destaque para combustíveis derivados, farelo de soja, celulose e carnes de aves.
Um dado chama atenção: as vendas de carne bovina aos EUA saltaram mais de 200%. A secretária de Comércio Exterior, Tatiana Prazeres, pondera que a base de comparação é deprimida — em outubro de 2023 o produto ainda enfrentava sobretaxas no mercado americano.
Importações aceleram e sinalizam aquecimento da demanda interna
Do lado das compras externas, o destaque vai para combustíveis, que dispararam 86,8%. Bens de consumo (+25,9%), bens de capital (+4%) e intermediários (+2,7%) também avançaram, sugerindo que a atividade doméstica segue demandando insumos e maquinário.
O que observar daqui para frente
No acumulado de janeiro a outubro, o superávit já soma US$ 71 bilhões — contra US$ 52,9 bilhões no mesmo período do ano passado. A combinação de preços elevados do Brent, diversificação de destinos e competitividade do agro mantém o viés de alta para o fechamento de 2024.
Dois movimentos merecem monitoramento próximo: a trajetória dos estoques americanos de petróleo, que ditam o apetite externo pelo barril brasileiro, e a renovação (ou fim) do imposto de exportação sobre o óleo bruto em janeiro, que pode alterar a dinâmica de preços no mercado doméstico.
