O debut da Anthropic na bolsa — um dos eventos mais aguardados do Vale do Silício — pode não acontecer em novembro. Investidores institucionais sinalizaram que a avaliação de US$ 1,5 trilhão (R$ 8,22 trilhões) está no teto do aceitável e pressionam por um desconto antes de confirmar presença no roadshow.
A dúvida não é se a empresa vai abrir capital, mas quando e a que preço. A resposta mexe com o humor de todo o setor de tecnologia.
O que travou a negociação na última hora
Fontes próximas às conversas revelam que a rodada de apresentações, prevista para começar na semana de 9 de novembro, perdeu fôlego após dois dias de queda forte em ativos ligados à inteligência artificial. O gatilho imediato foram as eleições de meio de mandato nos EUA, realizadas em 3 de novembro, que injetaram incerteza macroeconômica no mercado.
Com o S-1 atualizado sem os números de receita de outubro, gestores ficaram sem a métrica-chave para validar se a desaceleração dos últimos trimestres foi revertida. A Anthropic acumula prejuízos trimestrais recorrentes e tem compromissos pesados de expansão de infraestrutura — capital que o IPO deveria financiar.
Valoração: de US$ 2 tri para “quanto custa mesmo?”
Até poucos meses atrás, o teto de expectativa era US$ 2 trilhões (R$ 10,96 trilhões). A compressão para US$ 1,5 trilhão já reflete a venda generalizada de papéis de tecnologia no último mês. O setor entregou desempenho 10,7% inferior ao S&P 500 — a maior divergência negativa desde maio de 2002, segundo a Truist Advisory Services.
Keith Lerner, CIO da Truist, resume o clima: “o elástico está ficando esticado”. Os CDS (credit default swaps) da CoreWeave e da SpaceX atingiram recordes, sinalizando medo de calote no curto prazo.
O efeito dominó nos centros de dados
Não é só Wall Street. Em vários estados, iniciativas eleitorais aprovaram restrições à expansão de data centers — infraestrutura vital para treinar e rodar modelos de IA. A Microsoft, segundo a Bloomberg, apertou a fiscalização sobre parceiros de nuvem como Nebius, IREN e Nscale. Essas três perderam metade do valor de mercado em 30 dias.
Se a Anthropic adiar a oferta, o sinal para o mercado será de que nem os “queridinhos” da IA conseguem captar no ambiente atual. Isso pressiona as grandes big techs que sustentam os índices.
Por que alguns ainda apostam na estreia
Rick Meckler, da Cherry Lane Investments, lembra o paralelo com a SpaceX: “não é como se essas empresas não fossem fazer parte do futuro”. A tese é que a demanda do varejo — investidores pessoas físicas — pode absorver a operação mesmo com ceticismo institucional.
- Tamanho estimado da oferta: até US$ 100 bilhões (R$ 548 bilhões)
- Receita de outubro: dado ausente no S-1, decisivo para precificação
- Cenário-base: acordo em valuation reduzido e IPO ainda em 2026
- Cenário de risco: adiamento para 2027 se pressão em ativos de IA persistir
O que observar nas próximas semanas
A definição do preço por ação — prevista originalmente para a semana seguinte ao roadshow — é o termômetro. Se houver consenso em torno de US$ 1,3–1,4 trilhão, a oferta sai. Se o spread persistir, a Anthropic terá de escolher: aceitar valuation menor ou esperar janela melhor.
Para quem acompanha o setor, três sinais valem ouro: divulgação da receita de outubro, comportamento dos CDS de infraestrutura de IA e volume de venda do varejo em tech. O próximo movimento da Anthropic dirá se o mercado de IPOs de IA está apenas reprecificando risco ou fechando a porta.
