Tecnologia

China acelera IA que substitui humanos e Pequim corre para conter estrago no emprego

Robôs de IA trabalhando em escritório chinês enquanto humanos observam preocupados
Meituan e Tencent lançam IAs autônomas que ameaçam empregos na China

Duas gigantes chinesas revelaram nesta semana modelos de inteligência artificial capazes de executar tarefas complexas sem supervisão humana, enquanto o governo tenta frear o impacto sobre um mercado de trabalho já fragilizado. O avanço tecnológico não espera a regulação.

A Meituan, dona de um dos maiores apps de delivery do país, lançou na segunda-feira (2) o LongCat-2.5, modelo desenhado para assumir sozinho ciclos longos de programação. Dois dias depois, a Tencent — controladora do WeChat — apresentou o Hy4, primeiro sistema da empresa que opera um computador movendo mouse e teclado como faria uma pessoa.

O sinal de alerta veio de cima

O Conselho de Estado publicou há duas semanas uma orientação que pede “prudência no alcance, intensidade e ritmo” da IA em setores que absorvem muita mão de obra. O documento usa a expressão “desenvolvimento amigável ao emprego”, termo ecoado pelo economista Cai Fang em artigo no jornal da Escola Central do Partido.

Não há força de lei nem punições previstas. Ainda assim, a diretriz exige avaliação de impacto no emprego durante a análise de projetos que dependem de licença para entrar no mercado e recomenda a mesma prática nos demais setores. Às empresas, sugere criar “período de amortecimento”, avisar com antecedência quem será afetado e oferecer requalificação para os atingidos pelos esperados layoffs.

Números que explicam o medo

  • 18,9% — desemprego entre jovens de 16 a 24 anos fora da escola em agosto
  • 12,7 milhões — recém-formados que entraram no mercado no mesmo mês, recorde histórico
  • 25 mil yuan (R$ 20,5 mil) — salário do supervisor Zhou, reduzido para 15 mil yuan (R$ 12,3 mil) antes de ser demitido
  • 260 mil yuan (R$ 213 mil) — indenização mantida pela Justiça de Hangzhou em abril

O caso Zhou virou referência. Supervisor de 35 anos em uma tech de Hangzhou, ele conferia respostas de modelos de IA. Perto do Ano Novo Lunar de 2025, recusou a redução salarial e foi dispensado — a empresa alegou que a IA dava conta do serviço. Ganhou na arbitragem e em duas instâncias judiciais. A decisão saiu em abril.

O buraco que a regulação não cobre

A orientação de outubro mira projetos que precisam de licença — táxis sem motorista, fábricas têxteis, linhas de montagem —, onde a troca de gente por máquina aparece nas estatísticas. Mas os modelos lançados agora miram programadores e analistas em início de carreira, setores que não exigem licença e não são intensivos em mão de obra.

Zhou foi exceção por ter sido demitido com nome e data. O padrão mais comum é silencioso: a vaga de júnior simplesmente deixa de ser aberta. Essa perda só surge de forma indireta na taxa de desemprego jovem. O que o Conselho oferece a eles são cursos de IA e novas profissões, como a de treinador de modelos.

O que observar daqui para frente

Legisladores de outras economias grandes estão diante do mesmo dilema: a velocidade da automação cognitiva supera a capacidade de criar redes de proteção para quem perde espaço. A experiência chinesa mostra que orientações sem dentes legais não impedem a substituição silenciosa. O próximo teste será ver se Pequim transforma a “prudência” em exigência vinculante — e se o fará antes que a próxima geração de modelos chegue ao mercado.