A pobreza na Argentina saltou para 52,9% no primeiro semestre de 2024, o maior patamar em duas décadas. O choque atinge em cheio a base eleitoral que sustentou Javier Milei nas urnas.
O dado, divulgado pelo INDEC, revela que 24,9 milhões de argentinos vivem abaixo da linha da pobreza. A indigência — quem não consegue comprar a cesta básica de alimentos — bateu 18,1%.
O choque nos primeiros seis meses
A desvalorização de 54% do peso em dezembro, combinada com o fim de subsídios de energia e transporte, comprimiu o poder de compra em velocidade recorde. A inflação acumulada no semestre superou 80%.
Salários formais perderam 12% de poder aquisitivo no período. No setor informal, a queda passa de 20%. A classe média baixa — motor do voto anti-Kirchner — viu a renda real derreter.
Onde o ajuste dói mais
- Grande Buenos Aires: pobreza de 59,7%, epicentro do descontentamento
- Nordeste (NEA): 62,9%, região mais afetada
- Crianças de 0 a 14 anos: 66,1% na pobreza, 27% na indigência
O governo argumenta que o “choque de ordem” era inevitável para estancar a herança fiscal. Mas a velocidade do empobrecimento surpreendeu até técnicos do Ministério da Economia.
Rachaduras na coalizão
Governadores do PRO e da UCR — aliados necessários no Congresso — começam a cobrar compensações. O pedido central: recomposição de fundos coparticipáveis e obras paralisadas.
Na Câmara, deputados da base já votaram contra o veto presidencial à nova fórmula de aposentadorias. O placar: 153 a 87. A rebelião expõe o custo político do ajuste.
O cálculo de Milei para 2025
O presidente aposta que a inflação cairá a dígitos mensais até o fim do ano, ancorando expectativas. O superávit fiscal primário de 1,1% do PIB no semestre é a vitrine técnica.
Porém, a recuperação em “V” prometida para o segundo semestre depende de investimentos que ainda não chegaram. O risco país segue acima de 1.400 pontos. O crédito interno encolheu 30% em termos reais.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis definirão se a base social de Milei resiste até as legislativas de 2025: a trajetória do salário real a partir de setembro, a execução do bônus de $70.000 para aposentados de baixa renda e a capacidade do governo de mostrar queda sustentada da inflação de alimentos. Se dois desses pilares falharem, a pressão por mudanças no gabinete econômico deixará de ser especulação de bastidor.
