Economia

TAG Heuer mira topo no Brasil: F1 e acordo Mercosul-UE podem virar o jogo

Relógio TAG Heuer com branding Fórmula 1 sobre mapa do Brasil e símbolo acordo Mercosul-UE
TAG Heuer aposta em F1 e acordo Mercosul-UE para liderar mercado de luxo no Brasil.

A TAG Heuer quer liderar o mercado de luxo no Brasil e aposta em duas frentes decisivas: o retorno como cronometrista oficial da Fórmula 1 e a entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. A combinação promete destravar um portfólio hoje limitado por barreiras tributárias e igualar o faturamento local ao do México, atual líder na região.

Head de marketing da 356, distribuidora exclusiva da marca no país, Gabriela Monteiro resume a estratégia: “Cada marca é reconhecida pelo seu território. Nosso espaço histórico é a F1”. O próximo passo já tem data para acontecer — um novo relógio com a assinatura de Ayrton Senna deve chegar às vitrines em breve, reforçando a conexão emocional com o público brasileiro.

O efeito Senna e o retorno à F1

A relação com a categoria não é nova. Em 1969, a TAG Heuer patrocinou o piloto suíço Jo Siffert. Dois anos depois, Enzo Ferrari pediu a Jack Heuer, neto do fundador, que desenvolvesse um cronômetro confiável para a escuderia. O comendador não pagou pelo desenvolvimento; em troca, cedeu espaço nos carros e macacões para o logotipo da marca.

A empresa foi cronometrista oficial da F1 entre 1992 e 2003, quando perdeu o posto para a Rolex. Reassumiu a função na temporada passada. O GP do Brasil, em Interlagos, serviu de palco para ativações que resgatam a memória de Senna — embaixador da marca até sua morte em 1994 — e do modelo Monaco, imortalizado por Steve McQueen no filme “As 24 Horas de Le Mans” (1971).

Números que explicam a aposta

Estimativas da Morgan Stanley/Luxe Consult projetam faturamento global de 720 milhões de francos suíços (cerca de R$ 4,7 bilhões) para 2025, considerando relógios, óculos e artigos de precisão. O Brasil ocupa a segunda posição na América Latina, atrás apenas do México.

  • Preço médio no varejo: R$ 12 mil a R$ 500 mil (edições de colecionador)
  • Crescimento na década: mais de 100% no tamanho da operação local
  • Concorrentes diretos: Rolex, Cartier, Omega, Hublot, Breitling

Mas o volume ainda esbarra na logística. “Hoje, a variedade de produtos que vem para o Brasil não é tão grande”, admite Gabriela. Edições limitadas muitas vezes nem chegam às lojas — são vendidas sob reserva direta a clientes selecionados.

O que o acordo Mercosul-UE muda na prática

A expectativa da distribuidora é que a redução de tarifas e a simplificação de processos alfandegários permitam trazer coleções completas, hoje retidas na Europa por custo-benefício desfavorável. Se a projeção se confirmar, o mercado brasileiro pode empatar ou ultrapassar o mexicano em receita nos próximos anos.

A estratégia comercial, porém, não passa por e-commerce próprio. A TAG Heuer mantém o modelo de relacionamento presencial: de cada dez contatos com clientes, seis são “não comerciais” — jantares, prévias de lançamentos, eventos exclusivos. O consumidor-alvo é o aficionado por medição de tempo, velocidade e engenharia, perfil que transita entre o alta relojoaria e o universo do motorsport.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se a meta de liderança regional se concretiza: a velocidade de implementação do acordo comercial (ainda pendente de ratificações parlamentares), o calendário de lançamentos vinculados à F1 e à marca Senna, e a capacidade da 356 de escalar o atendimento de alto toque sem perder a exclusividade que justifica o ticket médio. O próximo GP do Brasil, em novembro de 2025, será o primeiro termômetro real dessa nova fase.