O papa Leão 14 pisa em solo argentino nesta sexta-feira (8) para a primeira visita papal ao país em quase quatro décadas. O cenário que o espera, porém, está longe de ser apenas ceremonial: a pobreza saltou para 32,3% da população e uma disputa silenciosa entre o presidente Javier Milei e sua vice, Victoria Villarruel, expõe fraturas políticas que o Vaticano não poderá ignorar.
Um encontro que já nasce tenso
Milei receberá o pontífice no aeroporto metropolitano de Buenos Aires, mas o protocolo já foi testado antes mesmo do pouso. Segundo o site Infobae, o presidente tentou subir ao avião papal para recepcionar Leão 14 — pedido vetado pela Santa Sé. Nos bastidores, a equipe presidencial também tentou impedir um encontro privado entre o papa e a vice-presidente.
Villarruel, católica declarada, acabou garantida na agenda: terá audiência individual com Leão 14 e participará da missa no bairro de Palermo na segunda-feira. Ficará de fora, contudo, dos eventos principais ao lado de Milei. O racha entre os dois, que se arrasta desde a posse, ganha assim um palco internacional.
O número que explica o desconforto
O pano de fundo da visita é social. Dados do INDEC divulgados recentemente mostram que a taxa de pobreza subiu 4,1 pontos percentuais em apenas seis meses, chegando a 32,3%. Em números absolutos, cerca de 2 milhões de argentinos cruzaram a linha da pobreza no período.
- Pobreza no semestre anterior: 28,2%
- Pobreza atual: 32,3%
- Novos pobres: ~2 milhões de pessoas
Para a Igreja argentina, o diagnóstico é direto: o ajuste fiscal que garantiu superávit primário pela primeira vez em mais de uma década cortou verbas de saúde, educação, refeitórios populares e apoio a pessoas com deficiência.
Igreja e Estado em campos opostos
Milei já chamou a justiça social de “roubo” e “aberração”. A Conferência Episcopal Argentina responde com documentos e homilias que defendem o papel do Estado na proteção dos vulneráveis. No Tedeum de 25 de maio, o arcebispo de Buenos Aires, Jorge García Cuerva, alertou para um “terrorismo das redes sociais” e risco de “desmembramento social”.
O ponto mais sensível deve ser a visita ao Cottolengo Don Orione, instituição católica que acusa o Ministério da Saúde de dever contribuições atrasadas. A Justiça chegou a bloquear contas da pasta às vésperas da viagem papal — um constrangimento protocolar que Leão 14 testemunhará de perto.
Por que Leão 14 e não Francisco?
Jorge Bergoglio, o papa Francisco, era argentino. Mas nunca voltou ao país natal após eleito em 2013. Temia ser instrumentalizado por lideranças locais e, nos últimos anos, a saúde impediu o plano. Leão 14, nascido nos EUA e naturalizado peruano por sua trajetória missionária, chega sem o peso da política doméstica — o que pode lhe dar liberdade para falar o que o antecessor evitava.
Dois terços dos argentinos se declaram católicos, proporção muito acima dos 40% do Uruguai, primeira escala da viagem. A recepção popular deve ser massiva, mas o termo “massiva” hoje carrega uma ambiguidade: multidões de fiéis e, ao mesmo tempo, multidões de famintos.
O que observar nos próximos dias
A agenda oficial prevê encontros com governadores, congressistas, ministros do STJ e representantes da sociedade civil no Palácio Libertad. Cada fala do papa será dissecada em busca de sinais: ele citará nominalmente a pobreza? Criticará o ajuste? Fará aceno a Villarruel?
Para investidores e empresários, a visita funciona como termômetro de estabilidade institucional. Um confronto aberto entre Igreja e governo pode ampliar a volatilidade política num momento em que o programa econômico ainda precisa mostrar resultados sociais. O superávit fiscal existe; a conta política, porém, segue aberta.
