A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) interrompeu o financiamento dos dois principais observatórios independentes que monitoram racismo e LGBTfobia no esporte nacional. A decisão contrasta frontalmente com as promessas públicas do presidente Samir Xaud, eleito em maio de 2025, de fortalecer o combate à discriminação.
Sem o aporte, a publicação do Anuário da LGBTfobia de 2026 e o relatório anual do Observatório da Discriminação Racial saem sem o respaldo da entidade máxima. O afastamento levanta dúvidas sobre a solidez das políticas de inclusão anunciadas nos discursos de posse.
O choque entre o discurso e o orçamento
Em seu primeiro mês de mandato, Xaud declarou que a “promoção da diversidade é uma pauta fundamental” e afirmou estar em contato com o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ para construir ambientes mais plurais. No papel, o compromisso parecia selado.
Na prática, porém, a entidade enviou um e-mail ao coletivo informando que “não dispõe mais de orçamento neste ano destinado a patrocínio de projetos executados por terceiros”. A mensagem reconhece a relevância do trabalho, mas fecha a porta para o custeio do anuário, do Seminário Baiano de Combate à LGBTfobia e do Festival LGBTricolor.
Dois projetos, um mesmo destino
O cenário se repete no Observatório da Discriminação Racial, que há 12 anos sistematiza episódios de racismo envolvendo atletas brasileiros, inclusive no exterior. Após quatro anos de apoio contínuo, o acordo encerrou-se em 2024 e não foi renovado pela nova gestão.
Embora a relação seja descrita como “boa” por ambos os lados — a CBF inclusive participará de uma ação no Dia da Consciência Negra —, o anuário de 2025 será lançado na sede da Federação Gaúcha sem um real da confederação.
- Coletivo Canarinhos LGBTQ+: publicava anuário desde 2022; tinha intenção de firmar contrato fixo para criar rede de observadores.
- Observatório da Discriminação Racial: 12 anos de histórico; monitora punições e desdobramentos institucionais dos casos.
- Investimento anterior: CBF custeou integralmente o anuário LGBT e manteve acordo de 4 anos com o Observatório Racial.
A versão da entidade e a resposta dos coletivos
Questionada, a CBF afirmou estar “criando estruturas e processos para avaliar e conduzir os projetos” e que, até a implementação total, tudo permanece em análise. A entidade alega ainda que, após o último aporte ao coletivo LGBT, não recebeu “projeto formal com escopo aceitável” nem “prestação de contas detalhada”.
Onã Rudá, fundador do Canarinhos, nega as pendências. Ele classifica o movimento como um “recuo na temática LGBTQ+ no futebol brasileiro”, alertando que a ausência de recursos compromete o monitoramento da violência discriminatória em um ambiente historicamente hostil.
O que observar daqui para frente
A lacuna entre a retórica de “protagonismo à sustentabilidade e diversidade” e a execução orçamentária será o termômetro da nova gestão. Para investidores e parceiros comerciais, o sinal de alerta está na capacidade da CBF de transformar compromissos ESG em contratos perenes, e não em ações pontuais de calendário.
Os próximos passos dependem da tal “estrutura de análise” prometida pela confederação. Se ela não sair do papel antes da temporada 2026, os observatórios — e os dados que geram para o mercado — continuarão órfãos de apoio institucional.
