O fundo de pensão dos trabalhadores paraguaios da Usina de Itaipu, a Cajubi, tinha G$ 100,692 bilhões — aproximadamente R$ 86 milhões — aplicados no Ueno Bank, instituição liquidada pelo Banco Central do Paraguai na terça-feira (3). O valor equivale a 2,8% do patrimônio total da entidade, mas esconde uma trajetória de crescimento acelerado que levanta dúvidas sobre a gestão de risco.
A liquidação do banco desencadeou uma crise política no país vizinho e expôs a vulnerabilidade de um fundo que garante a aposentadoria de milhares de servidores. O que parecia uma exposição “limitada” nos comunicados oficiais revela, nos balanços, uma aposta cada vez mais concentrada.
A escalada silenciosa dos aportes
Os números contam uma história diferente da narrativa oficial. No início de 2025, a Cajubi mantinha G$ 26,3 bilhões (R$ 22,5 milhões) em certificados de depósito do Ueno. Ao fim do ano, a posição já somava G$ 41,3 bilhões (R$ 35,3 milhões). O salto para os atuais G$ 100,7 bilhões representa uma alta de 143,8% em poucos meses e de 282,6% no comparativo anual.
O comunicado mais recente não detalha em quais produtos esses recursos estavam alocados na data da liquidação. A omissão impede avaliar se houve migração para instrumentos de maior risco ou simples rolagem automática de posições vencidas.
Exposição ao controlador do banco
Além dos valores no Ueno, o fundo detinha G$ 16,4 bilhões (cerca de R$ 14 milhões) em bônus de dívida do Grupo Vázquez, controlador da instituição financeira. Essa duplicidade — emprestar ao banco e ao seu dono — concentra o risco de contraparte em um único grupo econômico.
- Investimento direto no Ueno: G$ 100,692 bi (R$ 86 mi)
- Bônus do Grupo Vázquez: G$ 16,391 bi (R$ 14 mi)
- Total exposto ao conglomerado: G$ 117 bi (R$ 100 mi)
- Cobertura do fundo garantidor paraguaio: G$ 228,3 mi (R$ 195 mil) por depositante
A proteção do fundo garantidor cobre apenas 0,2% do valor aplicado pela Cajubi. Na prática, a recuperação dependerá integralmente do processo de liquidação judicial e da qualidade dos ativos remanescentes do banco.
Paralelo com o caso Master no Brasil
A situação ecoa o escândalo do Banco Master, revelado no ano passado. Institutos de previdência brasileiros aplicaram R$ 1,8 bilhão em letras financeiras da instituição sem garantia do FGC entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. Parte desses investimentos é alvo de investigação. No caso paraguaio, a Cajubi afirma que a decisão baseou-se em “critérios técnicos e objetivos”, fundamentados em indicadores públicos e parâmetros regulatórios do BCP.
O fundo garante que não poupará esforços para recuperar o patrimônio dos afiliados, mas não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a estratégia concreta de recuperação. Um comunicado de novembro assegura que o pagamento de aposentadorias e pensões segue normal, respaldado por uma carteira descrita como “sólida e diversificada”.
Lado brasileiro blindado, operação intacta
A Itaipu Binacional confirmou que a margem brasileira não possui recursos no Ueno. As aplicações financeiras do lado brasileiro seguem normas internas com critérios de segurança, liquidez e rentabilidade, observando as competências definidas separadamente para cada país no tratado de 1973. A direção da usina assegurou que a produção e o fornecimento de energia não sofreram impactos.
O que observar daqui para frente
A Cajubi convocou aposentados e pensionistas para reunião na terça-feira (10), em Ciudad del Este, para tratar da situação. O encontro deve sinalizar se haverá aporte extraordinário da usina, renegociação de prazos ou judicialização em massa. Para investidores e gestores de fundos de pensão, o caso reforça a necessidade de monitorar não apenas a concentração por instituição, mas a teia de relacionamentos entre bancos e seus controladores — especialmente em jurisdições com fundos garantidores de baixo teto.
