O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sentou-se com economistas e ministros no Palácio da Alvorada esta semana. O encontro espelha, ponto por ponto, o roteiro seguido há dois anos — mas faltam a novidade e o prazo que marcaram a transição anterior.
Em 2022, o anúncio de Fernando Haddad para o Ministério da Fazenda saiu 40 dias após a eleição. Hoje, sem eleição no horizonte, a bolsa de apostas gira em torno de nomes como Geraldo Alckmin, Rafael Fonteles, Dario Durigan e Bruno Moretti, enquanto Haddad segue no cargo.
O déjà-vu da Alvorada
A reunião desta semana reuniu o vice-presidente Alckmin, o ministro Haddad e uma lista de economistas para discutir cenário macroeconômico, desafios fiscais e condições de crescimento. O formato é idêntico ao de 30 de novembro de 2022.
Naquela data, Lula recebeu André Lara Resende, Nelson Barbosa, Guilherme Mello, Pérsio Arida e Gabriel Galípolo — então cotado para o BNDES, cargo que acabou com Aloizio Mercadante. Também estavam Alckmin, Gleisi Hoffmann, Mercadante e o próprio Haddad.
Relatos de ambos os encontros coincidem: não houve decisões, apenas diálogo.
COP como pano de fundo
Há dois anos, Lula viajou à COP27 no Egito levando Haddad na comitiva. Bastidores indicam que a definição do nome para a Fazenda amadureceu durante essa viagem.
Agora, o presidente embarca para a COP29 na Turquia. A diferença: não há transição de governo em curso, nem a urgência de montar uma equipe do zero.
- Outubro 2022: eleição em 30/10 → anúncio de Haddad em 09/12 (40 dias)
- Novembro 2024: reunião na Alvorada → viagem à COP29 → sem prazo definido
O debate que não muda
A polarização interna no PT e na esquerda permanece a mesma: ajuste fiscal versus expansão de políticas sociais. Em 2022, articulistas da esquerda escreviam que o mandato das urnas dava a Lula legitimidade para rejeitar a “cilada do ajuste”. O discurso atual ecoa a mesma tese.
O que muda é o peso da máquina pública. Haddad já comanda a pasta há quase dois anos, com arcabouço fiscal aprovado, meta de déficit zero para 2024 e Reforma Tributária em implementação.
O que observar daqui para frente
A repetição do ritual sem o frescor de um governo nascente expõe um dilema: manter a equipe que entrega resultados ou renovar para sinalizar nova fase? A viagem à Turquia pode servir de termômetro. Se houver anúncio, sairá de lá. Se não houver, a indefinição vira estratégia — e o mercado precifica a continuidade.
