A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) encerrou o financiamento que sustentava os dois principais instrumentos de monitoramento de discriminação no esporte nacional. A decisão afeta diretamente a publicação dos anuários sobre LGBTfobia e racismo, justamente quando a entidade prometeva ampliar essas frentes.
O movimento expõe um abismo entre o discurso oficial da nova gestão e a execução orçamentária. Entender os bastidores dessa ruptura é essencial para quem acompanha a governança e o risco reputacional do futebol brasileiro.
O e-mail que selou o fim da parceria
Em 2022, o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ lançou o primeiro Anuário do Observatório da LGBTfobia. A publicação sistematizava dados sobre violência e exclusão, além de mapear iniciativas de inclusão. Nos anos seguintes, a CBF assumiu o custeio total e discutia transformar a colaboração em contrato fixo para criar uma rede nacional de observadores.
Com a saída de Ednaldo Rodrigues e a posse de Samir Xaud em maio de 2025, o cenário mudou. O coletivo relata que o novo presidente se comprometeu inicialmente com aporte parcial para a edição de 2025, efetivado. Porém, às vésperas do anuário de 2026, a comunicação cessou. A resposta formal, via e-mail, foi direta: a entidade “não dispõe mais de orçamento neste ano destinado a patrocínio de projetos executados por terceiros”.
Além do anuário, ficaram sem apoio a participação no II Seminário Baiano de Combate à LGBTfobia e o Festival LGBTricolor. O coletivo contesta a alegação de falta de prestação de contas e aponta “recuo na temática LGBTQ+ no futebol brasileiro”.
Doze anos de monitoramento racial em risco
O corte não se restringe à pauta LGBTQ+. O Observatório da Discriminação Racial no Futebol, com 12 anos de histórico, publica relatórios anuais compilando episódios de racismo — incluindo atletas brasileiros no exterior — e o andamento das punições. Por quatro edições, contou com patrocínio da CBF.
O acordo se encerrou em 2024 e não foi renovado pela atual diretoria. Embora o diálogo permaneça aberto e a confederação confirme presença em ação no Dia da Consciência Negra, o anuário referente a 2025 será lançado na sede da Federação Gaúcha, sem aporte da entidade máxima. A CBF classifica o projeto como “sob análise” na nova estrutura de avaliação.
Discurso x Prática: o abismo da gestão Xaud
A contradição salta aos olhos ao comparar a decisão administrativa com as falas públicas do dirigente. Eleito com a promessa de “compromisso também com a inclusão e a diversidade”, Xaud declarou em posse:
- Fortalecimento das ações de combate ao racismo e a qualquer forma de discriminação.
- Retomada de competições como a Taça Indígena.
- Protagonismo a projetos de sustentabilidade.
Um mês depois, no Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, o site da CBF publicou frase do presidente: “A promoção da diversidade é uma pauta fundamental da nossa gestão… Já estamos em contato com o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ para trabalhar juntos”.
Na visão de Onã Rudá, fundador do coletivo, o afastamento impede avanços concretos. “A CBF poderia nos ajudar a combater a discriminação, mas infelizmente não conseguimos retomar os diálogos. Esse recuo compromete o nosso trabalho”, afirma.
O que observar nos próximos meses
A CBF alega estar “criando estruturas e processos para avaliar e conduzir os projetos” e que, até a implementação total, tudo permanece em análise. Para investidores e gestores de marca, três pontos merecem monitoramento contínuo:
- Implementação da nova governança social: Prazo e critérios transparentes para a “estrutura” prometida.
- Execução orçamentária 2026: Se a rubrica de diversidade será recomposta no próximo ciclo ou se o corte reflete prioridade estratégica definitiva.
- Resposta institucional ao racismo: A manutenção do Observatório Racial sem verba da CBF testa a autonomia e a perenidade do monitoramento independente.
O futebol brasileiro vive um momento de transição regulatória e de mercado. A forma como a entidade máxima lida com seus ativos de credibilidade social — os observatórios de direitos humanos — será um termômetro decisivo para parceiros comerciais e para a própria legitimidade da gestão nos próximos anos.
