Justiça

Você não vai acreditar: ordem da Rocinha paralisou água no sertão

Prateleiras vazias de mercado no sertão do Ceará durante crise de água causada por facção do Rio
Comércio de água mineral paralisado em Banabuiú (CE) por ordem de facção criminosa da Rocinha (RJ).

Uma facção criminosa sediada na Rocinha, no Rio de Janeiro, ditou as regras do comércio de água mineral em Banabuiú, cidade de 17 mil habitantes no sertão central do Ceará. O resultado: prateleiras vazias, filas sob escolta policial e uma operação de emergência para matar a sede da população. A distância de 2,5 mil quilômetros não foi obstáculo para o esquema de extorsão.

O “Edital” que fechou o comércio

Tudo começou em 19 de outubro, quando mensagens batizadas de “Edital Banabuiú” circularam nos celulares dos comerciantes. Assinado pela “Diretoria de Banabuiú” do Comando Vermelho, o texto exigia autorização da facção para vender água. Quem descumprisse, “sofreria as consequências”.

Os valores da extorsão variavam: R$ 200 para manter o estabelecimento aberto, R$ 750 semanais para comercializar garrafões ou R$ 1,50 por unidade vendida. Temendo represálias, os donos de depósitos e mercadinhos baixaram as portas. Em poucos dias, a cidade ficou sem fonte de água potável para compra.

População na fila, água na torneira (mas ninguém confia)

Sem o produto nas prateleiras, moradores formaram filas quilométricas para comprar garrafões de 20 litros a R$ 6 cada, limitados a duas unidades por pessoa. A distribuição emergencial, montada pela Cagece com escolta da PM, durou dias.

Muigos recorreram à água da rede pública, tratada pelo SAAE a partir do açude local. A autarquia garante a potabilidade. A população, no entanto, relata dores abdominais e desconfia da qualidade. “A gente não pode beber água do açude”, desabafou a dona de casa Antônia Conceição após esperar duas horas na fila.

Comando remoto: como a Rocinha manda no sertão

Segundo a Secretaria de Segurança Pública do Ceará, as ordens partiam de um chefe escondido no complexo da Rocinha. Ele usava DDD 21 para ligar e enviar áudios. Não havia capangas cariocas na cidade; faccionados locais cumpriam o papel de “braço armado” da extorsão.

  • 10 presos preventivamente entre 22 de outubro e 5 de novembro.
  • Idades entre 25 e 60 anos, com antecedentes por tráfico e violência doméstica.
  • Um dos detidos chegou a ameaçar o delegado responsável pela investigação.

O secretário-executivo Sérgio Pereira admitiu a dificuldade de prender o mandante no Rio: o terreno favorece a fuga e impede operações simples. Não é novidade: em 2025, o MP-RJ revelou que criminosos cearenses refugiados na Rocinha ordenaram mais de mil mortes em dois anos.

O contágio: Fortaleza e interior já sentem o efeito

Após o caso Banabuiú vir a público, denúncias idênticas pipocaram em bairros da capital — Parque Dois Irmãos, Passaré, Manuel Dias Branco — e em cidades como Meruoca e Caridade. Esta última, inclusive, ficou sem internet em 2025 após ataques de facção. O padrão se repete: ameaças virtuais, comércio paralisado, população refém.

O que observar daqui para frente

A venda regular foi retomada em 4 de novembro com a chegada de caminhões escoltados, mas a operação emergencial da Cagece não tem data para acabar. O empresário e o investidor devem monitorar três variáveis: a capacidade do Estado de prender a liderança no Rio, a migração desse modelo de extorsão para outros insumos essenciais (gás, combustíveis, alimentos) e a estabilidade do abastecimento em áreas onde a presença policial é mais frágil. A lição de Banabuiú é clara: a logística do crime organizado ignorou fronteiras estaduais e transformou um bem básico em moeda de poder.