O varejo de moda fechou setembro com um saldo negativo de 46,4 mil postos formais — o pior resultado para o mês em toda a série histórica do Caged. A Abvtex aponta o fim da taxação de encomendas internacionais de até US$ 50 como o principal gatilho para a sangria, justamente às vésperas da Black Friday e do Natal.
Mas a conta não fecha só na isenção fiscal. Juros a 13,75%, endividamento recorde das famílias e a agressividade de plataformas asiáticas formam uma tempestade perfeita que já fez a Renner retirar projeções de receita para os próximos cinco anos.
Onde os cortes doem mais
Dos quase 46,4 mil postos extintos no varejo total, o comércio de vestuário e acessórios respondeu sozinho por 34,9 mil. O segmento de calçados adicionou outros 11,5 mil desligamentos. Juntas, as duas categorias concentram 100% da destruição líquida de empregos no setor no nono mês do ano.
O dado expõe a fragilidade de uma cadeia que emprega intensivamente mão de obra de baixa e média qualificação — justamente a mais sensível a variações de volume de vendas.
Vendas em queda livre há cinco meses
Não é apenas o emprego que recua. O IBGE registrou retrações consecutivas no volume de vendas do varejo de moda:
- Maio: -3,6%
- Junho: -2,8%
- Agosto: -1,5%
- Setembro: -3,9%
O único mês sem dado negativo divulgado foi julho, o que sugere uma trajetória de enfraquecimento sustentado, e não um evento pontual.
Remessas internacionais dobram de tamanho
Enquanto o varejo nacional encolhe, o Programa Remessa Conforme processou 86,1% mais encomendas no período posterior à isenção, na comparação com o mesmo intervalo de 2023. O fluxo beneficia diretamente Shein, AliExpress e Shopee, que operam com estrutura de custos incomparavelmente menor — sem recolher ICMS, IPI, PIS/Cofins nem arcar com a folha de pagamento brasileira.
A associação do setor argumenta que a competição deixou de ser comercial para se tornar regulatória: empresas nacionais cumprem toda a legislação trabalhista e tributária; concorrentes externos, não.
Renner antecipa o recado ao mercado
O sinal mais contundente veio da maior varejista de moda do país. Na quinta-feira (5), a Lojas Renner comunicou a retirada das projeções de crescimento de receita para 2026 e para o ciclo 2027-2030. A justificativa cita explicitamente “o cenário macroeconômico adverso, o alto endividamento das famílias e a concorrência desleal de plataformas internacionais”.
Quando a líder de mercado abre mão de guidance de longo prazo, o recado para investidores e fornecedores é claro: a visibilidade sumiu.
O que muda em 2025 com a reforma tributária
A partir de janeiro, a primeira fase da reforma tributária institui a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), com alíquota estimada em 9%, incidente também sobre importações de baixo valor. Na prática, a isenção total deixa de existir — mas a alíquota prevista ainda é inferior à carga efetiva suportada pelo varejo nacional, que supera 30% quando somados tributos federais, estaduais e municipais.
O governo havia sinalizado revisão da medida ainda em 2024. Até o momento, nenhuma portaria ou projeto foi apresentado.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis ditarão se o quarto trimestre salva o ano ou consolida a crise: (1) eventual medida provisória ou decreto restabelecendo tributação para remessas até US$ 50; (2) desempenho real da Black Friday, primeiro teste de demanda com juros em 13,75%; (3) comportamento do crédito ao consumidor, já que 78% das compras de vestuário no varejo físico são parceladas. Sem alívio em pelo menos uma dessas frentes, a tendência de fechamento de postos deve se estender para outubro e novembro.
