Cultura

O segredo dos cadernos perdidos de Marx que chega ao Brasil em 2025 — e o que mais as editoras preparam

Capa do livro "Cadernos Antropológicos" de Karl Marx, organizado por Marcello Musto, editora Ubu, lançamento 2025
Capa da edição brasileira dos "Cadernos Antropológicos" de Marx, inéditos no Brasil, com organização de Marcello Musto pela Ubu.

A editora Ubu confirma para 2025 o lançamento dos “Cadernos Antropológicos”, material inédito de Karl Marx organizado pelo sociólogo Marcello Musto. A obra revela a fase final do pensamento do autor, focada no colonialismo e na antropologia — território pouco explorado nas edições brasileiras até agora.

Mas este não é o único movimento relevante no mercado editorial nos próximos meses. Direitos internacionais, novas coleções e turnês de autoras premiadas desenham um cenário de expansão e aposta em vozes contemporâneas.

O “Marx maduro” finalmente acessível ao leitor brasileiro

Os cadernos foram escritos na última década de vida de Marx, entre 1874 e 1883. Neles, o autor debruça-se sobre sociedades não europeias, sistemas de亲属 e formas de propriedade comunal — temas que escapam da análise econômica clássica.

A edição da Ubu traz o “Caderno Kovalevski”, focado na crítica do colonialismo russo na Ásia Central. O projeto gráfico reproduz manuscritos e ilustrações originais, tornando o volume também um objeto de pesquisa visual.

Para o mercado, a aposta sinaliza duas tendências: a valorização de edições críticas comentadas e o interesse renovado por perspectivas decoloniais dentro do cânone marxista.

Direitos vendidos: o caso Tamara Klink e a escalada global

“Bom Dia, Inverno”, relato da velejadora Tamara Klink sobre sua invernagem no Ártico, fechou contrato com 15 editoras estrangeiras antes mesmo de completar seis meses de lançamento no Brasil. A obra sai pela Companhia das Letras em maio de 2024.

  • Alemanha, Espanha, Coreia do Sul
  • Estados Unidos, França, Itália, Portugal
  • Mais oito territórios não divulgados

O feito é raro para não-ficção brasileira contemporânea e indica apetite internacional por narrativas de aventura feminina em ambientes extremos.

Infância e arte: a estratégia da Bamboozinho

A editora voltada à primeira infância lança a coleção “Vejo Vejo”, apresentando artistas plásticos a crianças. O volume inaugural sobre Cândido Portinari já estreou em Pequim, setembro de 2024, durante a exposição “O Brasil de Portinari”.

Outros três títulos trazem Alzira Fragoso, Dani Rampe e Isabela Santos — artistas vivas, mulheres, contemporâneas. A escolha expande o repertório visual infantil além do modernismo canônico.

Turnês internacionais: duas autoras, dois perfis, mesmo mês

Novembro traz ao Brasil duas escritoras com trajetórias distintas, mas recepção crítica forte:

Autora Obra Editora Paradas confirmadas
Neige Sinno “La Realidad” Amarcord Rio (7/11), Porto Alegre (12/11), São Paulo (15/11)
Moshtari Hilal “Feiura” Dublinense Porto Alegre (9/11), São Paulo (10/11), Rio (18/11)

Sinno vem de “Triste Tigre”, vencedor do Prêmio Femina 2023. Hilal estreia no Brasil com ensaio que cruza xenofobia, padrões de beleza e cultura pop. Ambas contam com apoio institucional — Embaixada da França e Instituto Goethe, respectivamente.

O que observar daqui para frente

A Ubu prepara para 2027 os cadernos de campo de Hanna Limulja, pesquisadora ianomâmi e professora da UFRR, autora de “O Desejo dos Outros”. A aposta em etnografia indígena autoral consolida a editora como polo de antropologia contemporânea.

Para quem acompanha o mercado: a combinação de direitos vendidos no exterior, edições críticas de clássicos e aquisição de vozes periféricas premiadas desenha um padrão. Editoras médias estão deixando de ser “nichos” para operar como players globais de conteúdo intelectual.

O próximo balanço do setor, previsto para o primeiro trimestre, deve confirmar se a aposta em não-ficção de autoras mulheres e perspectivas decoloniais se traduz em faturamento sustentável — ou se permanece como prestígio simbólico.