Justiça

110 urnas ‘zeraram’ candidatos no 2º turno: o mapa que ninguém te mostra

Mapa do Brasil destacando 110 seções eleitorais onde candidatos tiveram zero votos no 2º turno
Concentração geográfica das 110 urnas que zeraram votos para um dos candidatos presidenciais

Um levantamento exclusivo identificou 110 seções eleitorais onde um dos dois candidatos à presidência não recebeu um único voto no segundo turno. O número parece alarmante, mas representa apenas 0,02% do total de urnas — e esconde um padrão geográfico revelador.

Das 110 seções, 106 não registraram votos para o candidato do PL, somando 14.860 votos para o petista. Outras quatro seções ‘zeraram’ Lula, onde o adversário recebeu 296 votos no total. A concentração geográfica dessas urnas conta uma história que vai muito além de suspeitas de fraude.

O perfil das seções ‘zeradas’: Amazônia e interior profundo

A esmagadora maioria das urnas sem votos para o candidato do PL está na Região Norte: 65 seções em 34 municípios. O Nordeste aparece em segundo com 29 seções. Juntas, as duas regiões concentram 85% dos casos.

Não é coincidência. Essas seções ficam em:

  • Aldeias indígenas e Terras Indígenas (como Vale do Javari e Karitiana)
  • Comunidades quilombolas e ribeirinhas
  • Assentamentos rurais de difícil acesso
  • Pequenas vilas na Amazônia Legal

São localidades com poucos eleitores, distantes dos centros urbanos, onde a dinâmica política difere radicalmente das capitais.

Casos emblemáticos: Uiramutã e a força do padrão

Uiramutã (RR) lidera o ranking com sete seções ‘zeradas’ para o PL. Lula recebeu 1.163 votos nelas. No município, 96,6% da população se autodeclara indígena. Considerando todas as 38 seções da cidade, o petista fez 72,87% dos votos válidos.

Atalaia do Norte e São Gabriel da Cachoeira (AM) registraram cinco seções cada uma sem votos para o candidato do PL. Em São Gabriel, onde 90% da população é indígena, Lula atingiu 80% dos votos válidos no total do município.

Exceções urbanas que confirmam a regra

O fenômeno não se restringe ao interior profundo. Em Teresina (PI), uma seção na zona rural (povoado Fazenda Nova) registrou 16 votos — todos para Lula. Em Porto Velho (RO), uma seção na Terra Indígena Karitiana computou 106 votos: 104 para Lula, dois brancos ou nulos.

Nas duas capitais, o resultado geral foi oposto ao das seções isoladas: Teresina deu 67,98% a Lula; Porto Velho, 61,66% ao candidato do PL.

O lado inverso: onde Lula não recebeu votos

Quatro seções zeraram o petista. Duas no Pará (Chaves, na Ilha do Marajó) e duas no Rio Grande do Sul (Arroio do Padre e Cândido Godói). São pequenas comunidades rurais e colônias agrícolas onde o candidato do PL venceu com folga.

Em Arroio do Padre (RS), município de 2.599 habitantes, o PL fez 86,1% dos votos válidos. Na seção ‘zerada’ para Lula, 116 dos 118 votos foram para o adversário.

Padrão se repete: o espelho de 2022

O cenário não é novidade. No segundo turno de 2022, Lula não recebeu votos em quatro seções (duas em Caracas, uma em Chaves e uma em Charrua). Jair Bolsonaro zerou em 143 seções, majoritariamente no Norte e Nordeste, além de duas no exterior (Argentina e Cuba).

A reiteração do padrão geográfico — zonas indígenas, ribeirinhas e rurais remotas — reforça que o fenômeno reflete composição demográfica, não anomalia técnica.

Como o dado foi verificado

A análise cruzou os Boletins de Urna (BU) de mais de 490 mil seções. O BU é documento público impresso pela urna ao fim da votação, com eleitores aptos, comparecimento, brancos, nulos e votos por candidato. Qualquer cidadão pode conferir.

O que observar daqui para frente

A concentração de votos unânimes em territórios específicos sinaliza dois pontos para analistas de risco político e estrategistas: a consolidação de bases eleitorais em regiões de difícil acesso e a necessidade de comunicação segmentada para além dos grandes centros. Monitorar a evolução do comparecimento e da distribuição de votos nessas seções nas próximas eleições municipais e gerais permitirá calibrar modelos de projeção com maior precisão territorial.