Kimi Antonelli colocou a Mercedes no topo da tabela em Interlagos com uma vantagem que não se via há tempos: 253 milésimos sobre o segundo colocado. O campeão antecipado de 2026 não tirou o pé — e o recado foi claro para quem ainda duvida da dominância da equipe alemã nas etapas finais.
Mas o italiano não foi a única história do dia. Um brasileiro entrou no top 10 com a única Audi funcional. Outro, estreante, calou críticos com consistência cirúrgica. O que aconteceu na sexta-feira em São Paulo redesenha expectativas para a classificação de sábado.
A margem que assusta: 0s253 em pista curta
Interlagos tem 4,309 km. Em circuitos curtos, diferenças costumam ser medidas em centésimos. Antonelli abriu dois décimos e meio para Lando Norris, da McLaren. Max Verstappen, tricampeão e referência absoluta, ficou a 259 milésimos — terceiro nas duas sessões.
George Russell, companheiro de Antonelli, fechou o top 4 a 273 milésimos. Quatro carros em menos de três décimos. A Mercedes não apenas liderou; enfiou dois carros na frente de todo mundo com folga.
Atualizações da McLaren funcionaram — mas não o suficiente
Norris foi rápido no TL1 e repetiu o desempenho no TL2. A McLaren trouxe pacote aerodinâmico novo para Interlagos. Funcionou: o carro está estável, veloz nas retas e eficaz no setor 2. Ainda assim, a Mercedes encontrou algo a mais.
Oscar Piastri, 5º a 321 milésimos, confirma: o pacote é bom. Mas a diferença para Antonelli sugere que a Mercedes extrai mais do composto macio em volta única. Isso pode não se sustentar na corrida, onde degradação e gestão de pneus contam mais.
Bortoleto: “o melhor do resto” com Audi sozinha na pista
Gabriel Bortoleto fez o dever de casa. Oitavo, a 1s017 do líder, o brasileiro foi o primeiro carro fora das quatro grandes equipes — Mercedes, McLaren, Red Bull, Ferrari.
O contexto torna o resultado mais pesado: Nico Hülkenberg, companheiro de equipe, não deu uma volta sequer no TL2. O carro quebrou no TL1 nas mãos do novato Freddie Slater. A Audi identificou o problema, mas não consertou a tempo.
Bortoleto andou sozinho, sem referência de telemetria do lado de garagem, e cravou top 10 nos dois treinos. Para uma equipe em reconstrução, é o cenário ideal: validação do chassis e do piloto de uma só vez.
- 8º no TL1 — 1s122 do líder
- 8º no TL2 — 1s017 do líder (melhora de 0s105)
- Único Audi a marcar tempo no dia
- À frente de Isack Hadjar (Red Bull) e Oliver Bearman (Haas)
Câmara: estreia sem erros, evolução real
Rafael Câmara, 19 anos, campeão da F3 e da FRECA, estreou em sessão oficial de F1. Começou 18º no TL1, subiu para 16º no TL2. A diferença para o companheiro Oliver Bearman caiu de 8 décimos para 570 milésimos — ganho de 230 milésimos em uma sessão.
Não houve rodadas, toques no muro ou reclamações de rádio. A comunicação foi técnica, calma. A engenheira passou orientações; Câmara executou. Testou procedimento de largada — elogiado. Errou o ponto exato de parada nos boxes — corrigível. Reclamou do pedal do acelerador “longo” na simulação de corrida; a equipe vai investigar.
Para um novato em Interlagos, pista traiçoeira, de baixa aderência e curvas cegas, a abordagem conservadora e limpa é sinal de maturidade. Haas tem dados para trabalhar no TL3.
O que vem a seguir: TL3 e classificação decidem tudo
Sábado, 11h30, terceiro treino livre. Equipes vão para acerto de classificação: mapa de motor agressivo, pneus macios novos, tanque vazio. A ordem pode virar — especialmente no meio do pelotão, onde 0s1 separam cinco carros.
Às 15h, a classificação. Interlagos premia posição de largada: ultrapassar é possível, mas arriscado. Quem larga na frente controla o ritmo. Antonelli tem vantagem psicológica e de dados. Norris e Verstappen têm experiência. Bortoleto tem momentum. Câmara tem nada a perder.
O que observar daqui para frente
Fique de olho na degradação dos compostos macios nas long runs do TL3 — a Mercedes costuma degradar mais que a McLaren em stint longo. A Audi pode surpreender no Q2 se Hülkenberg voltar ao carro. E Câmara? Se repetir a evolução do TL1 para o TL2, entra no Q2. Em Interlagos, isso já é vitória.
