Economia

De briga por pote a R$ 100 mi: o segredo da ‘Nestlé saudável’…

Juliana Maena, fundadora da La Ganexa, segurando pote de pasta de amendoim artesanal na fábrica em Peruíbe SP
Da cozinha de casa em Peruíbe para exportação a 3 países: a trajetória da La Ganexa rumo a R$ 100 milhões.

Uma briga de irmãos por um pote de pasta de amendoim ruim e os R$ 10 que restavam no bolso da mãe deram origem a uma marca que hoje exporta para três países e mira faturamento de R$ 100 milhões em 2027. O mais surpreendente não é o número, mas como a família atravessou o “vale da morte” das startups sem vender o controle.

Juliana Maena transformou a cozinha de casa em Peruíbe (SP) em fábrica. Hoje, a La Ganexa está em 5 mil pontos de venda no Brasil e fatura cerca de R$ 400 mil por ano apenas nos Estados Unidos.

O início amador e a barreira dos 60%

Nos dois primeiros anos, a operação era 100% informal. Juliana batia seis quilos por vez no liquidificador e oferecia via WhatsApp para academias e amigos. A resposta padrão era “não”. Embalagem feia, rótulo ruim, caixa de papelão reutilizada: o amadorismo era total.

“Sabíamos que a cada cem portas, teríamos cinco vendas”, resume Allan Gomes de Souza, diretor administrativo e filho da fundadora. Tudo o que entrava era reinvestido.

O ponto de virada chegou em 2021, quinto ano de vida — justamente quando 60% das microempresas fecham as portas, segundo o Sebrae. A La Ganexa rompeu a barreira de São Paulo, lançou o sabor “leitinho” (carro-chefe até hoje) e foi ao Shark Tank Brasil.

Por que disseram “não” a Polishop e Atomics

No programa, João Apolinário (Polishop) e Carol Paiffer (Hub Dinastia/Atomics) fizeram propostas de sociedade. A família recusou as duas.

  • Manter o controle decisório sobre fórmulas e qualidade;
  • Evitar pressão por retorno de curto prazo que comprometesse reinvestimento;
  • Preservar a cultura familiar que sustenta a marca.

No fim de 2021, a receita anual já beirava R$ 2 milhões. A aposta na autonomia pagou-se.

Exportação nasceu de um jantar casual

O salto internacional não veio de plano estratégico, mas de um acaso. Alex Alencar, sócio do Camila’s Restaurant (Miami e Orlando), provou a pasta na casa da cunhada e procurou Allan. Após visitar a fábrica em Peruíbe, fechou o primeiro pedido: R$ 40 mil.

Hoje, o mercado americano responde por cerca de R$ 400 mil anuais. O próximo passo é a Argentina: a equipe pesquisa como adaptar o doce de leite ao padrão local para vender junto com a pasta e os alfajores que já entram no país vizinho.

O perigo da canibalização e a virada de portfólio

Com 13 linhas e 50 variações (tamanhos e sabores), a empresa percebeu um problema: cada novo sabor de pasta roubava venda do anterior. “Estávamos trocando de faturamento, não crescendo”, admite Allan.

A solução foi expandir para outros momentos de consumo: café da manhã, lanche da tarde, salgados e produtos para acompanhar a pasta. Em 2024, inaugurou uma fábrica nova após dois anos de obras — estrutura para suportar a meta de R$ 100 milhões.

Gestão familiar com CEO “mão na massa”

São 48 funcionários, tornando a La Ganexa o maior empregador privado de Peruíbe (68,3 mil habitantes). Juliana continua no centro: além de CEO, é a chefe operacional. Não produz, mas dá a palavra final em fórmulas, novos produtos e controle de qualidade. O nome e o logotipo também são criações dela.

“Ganesha” (deus hindu removedor de obstáculos) virou “Ganexa”: o “sh” deu lugar ao “x” de multiplicação; o “La” inicial marca a fundadora mulher. A família é evangélica — a escolha é simbólica, não religiosa.

O que observar daqui para frente

A aposta agora é preencher o vácuo de uma “Nestlé dos saudáveis”: enquanto 8 em cada 10 brasileiros citam a Nestlé como maior indústria de alimentos, quase ninguém aponta uma gigante equivalente no segmento healthy (suplementos não contam como alimento).

Com fábrica própria, portfólio diversificado, presença internacional incipiente e caixa reforçado por reinvestimento, a La Ganexa tem as peças para tentar esse posto. O termômetro será a execução da expansão na Argentina e a capacidade de lançar categorias além da pasta sem perder margem — tudo sem abrir mão do controle que recusou vender aos tubarões.