Tecnologia

Meta recua: termos que permitiam “raspar” notícias grátis são suspensos

Logo da Meta com ícone de robô raspando jornais, símbolo de disputa judicial sobre direitos autorais
Meta suspende termos que permitiam coleta automatizada de notícias após decisão judicial brasileira.

A Meta anunciou nesta sexta-feira (6) a suspensão das novas regras comerciais que entrariam em vigor no dia 20 de novembro. A decisão ocorre dias depois de a Justiça de São Paulo proibir a empresa de usar robôs para coletar conteúdo jornalístico sem pagamento — sob multa diária de R$ 1 milhão.

O que parecia uma atualização burocrática virou disputa judicial global. Entidades de mídia de três continentes alegavam que os termos autorizariam a big tech a sugar reportagens, fotos e vídeos para treinar inteligência artificial sem remunerar os produtores.

O que a Justiça brasileira decidiu

Na terça-feira (3), o juiz Guilherme Madeira Dezem, da 44ª Vara Cível de São Paulo, atendeu a ação conjunta da ANJ, Abert e Aner. A liminar bloqueia trechos que exigiriam autorização gratuita para “web scrapers” — programas que copiam automaticamente páginas inteiras.

A multa por descumprimento chega a R$ 100 milhões no total. O magistrado classificou a cláusula como abuso em contrato de adesão, onde uma parte impõe condições sem negociação.

“Impor a entrega gratuita do patrimônio autoral como pedágio para acessar o público constitui enriquecimento sem causa”, escreveu o juiz na decisão.

Impacto direto para quem publica na internet

Pelas regras propostas, o simples fato de manter perfis ativos no Facebook, Instagram ou Threads equivaleria a aceitar a coleta irrestrita. Veículos de todos os portes — de grandes jornais a newsletters independentes — teriam o conteúdo aspirado para alimentar a Meta AI.

Principais pontos que estavam em jogo:

  • Coleta automática de textos, imagens e vídeos via robôs
  • Uso para treino de IA sem licenciamento nem pagamento
  • Aceitação tácita pelo uso contínuo das plataformas
  • Sem contrapartida financeira para os detentores dos direitos

Pressão internacional antecedeu o revés no Brasil

Antes mesmo da decisão brasileira, o Movement for an Open Web — coalizão que reúne anunciantes e empresas jornalísticas — havia levado queixas à Comissão Europeia e à autoridade de concorrência do Reino Unido. O primeiro adiamento, de 30 de outubro para 20 de novembro, já sinalizava que a resistência global era maior que o previsto.

A Meta, em nota, limitou-se a dizer que “continua dialogando com as partes interessadas” e que os termos atuais seguem valendo. Não comentou a decisão judicial brasileira quando procurada.

O que observar daqui para frente

A suspensão não encerra a disputa — apenas ganha tempo. Três frentes merecem atenção nos próximos meses:

  • Negociação real ou novo adiamento? A empresa precisará apresentar contraproposta que contemple remuneração ou licença explícita.
  • Desdobramentos na Europa e no Reino Unido — decisões regulatórias lá costumam ditar padrões globais.
  • Precedente jurídico brasileiro — a multa diária de R$ 1 milhão cria parâmetro forte para futuras ações de outros setores criativos.

Para empresários e investidores de mídia, o recado é claro: o modelo de “conteúdo grátis como moeda de troca por distribuição” está sendo contestado em tribunais e reguladores simultaneamente. Quem depende de plataformas alheias para atingir o público precisa diversificar canais — e cobrar pelo ativo que produz.