A Tesla confirmou que vai encerrar a produção da Cybertruck em meados de 2027, transformando em realidade o que analistas já previam: a picape futurista de Elon Musk não conseguiu sair do nicho. A fábrica de Austin, única preparada para fabricar seus componentes exclusivos, será redirecionada para o Cybercab, o robotáxi sem volante que concentra as apostas da empresa em autonomia total.
O anúncio cai como uma pá de cal em um projeto que prometia 250 mil unidades por ano e entregou uma fração disso. Mas a decisão revela mais sobre para onde a Tesla caminha do que sobre o próprio veículo.
Números que não mentem: o fracasso comercial em dados
Segundo a Kelley Blue Book, a Cybertruck vendeu apenas 20.237 unidades nos EUA em 2025 — queda de 48% frente às 38.965 de 2024. Para contextualizar: a projeção inicial de Musk era 12 vezes maior. O modelo estreou no fim de 2023 e, desde então, acumula 11 recalls pela NHTSA, entre reparos físicos e atualizações de software.
- Meta original: 250 mil unidades/ano
- Realidade 2025: 20.237 unidades
- Queda ano a ano: 48%
- Recalls totais: 11
Andy Palmer, ex-CEO da Aston Martin, resume: “Não faz sentido continuar quando não atinge metas. Qualquer profissional racional diria o mesmo.”
O design que travou o mundo
A carroceria de aço inoxidável com arestas vivas — a assinatura visual do veículo — virou seu maior entrave regulatório. Normas europeias de impacto contra pedestres tornam a homologação impossível no continente. Nos EUA, o design polarizou: puristas de picape rejeitaram a estética, enquanto o público geral não abraçou a proposta.
O episódio de lançamento em 2019, quando bolas de metal racharam as janelas “à prova de estilhaçamento”, virou símbolo de um produto que prometia revolução e entregou controvérsia.
SpaceX: o cliente oculto que sustentou as vendas
Um dado pouco comentado explica parte do faturamento: a SpaceX, outra empresa de Musk, comprou US$ 131 milhões em Cybertrucks em 2025 a preços de tabela, segundo documento de abertura de capital. Sem esse comprador interno, os números seriam ainda mais modestos.
O pivô para o Cybercab: aposta toda na autonomia
O fim da picape libera capacidade para o Cybercab — veículo de dois lugares, portas asa de borboleta, sem volante, pedais ou retrovisores. A Tesla diz ter capacidade instalada para mais de 125 mil unidades anuais, mas a produção começou apenas este ano.
Em setembro, a empresa iniciou corridas pagas com uma pequena frota em Austin. A NHTSA abriu auditoria para verificar se a certificação do veículo atende às normas federais de segurança. São 570 Cybercabs entre os 1.200 robotáxis operando no Texas; o resto são majoritariamente Model Y.
Contexto: uma semana de perdas bilionárias
O anúncio chega após dias turbulentos. Musk gastou cerca de US$ 500 milhões em campanhas políticas nas legislativas americanas — a maioria dos candidatos apoiados perdeu. Suas empresas viram US$ 180 bilhões evaporarem em valor de mercado na mesma semana.
No terceiro trimestre de 2026, a Tesla reportou receita de US$ 28 bilhões (estável) e lucro líquido de US$ 787 milhões — queda de 43%. Entregas: 486,5 mil veículos.
O que observar daqui para frente
A transição da Cybertruck para o Cybercab sinaliza a metamorfose da Tesla: de montadora de elétricos para empresa de IA e robótica. Mas o robotáxi ainda é um programa incipiente, sem escala comprovada nem validação regulatória definitiva.
Enquanto concorrentes chineses (BYD, Geely) e rivais tradicionais (Volkswagen, Hyundai) avançam em volume e custo, a Tesla aposta tudo em um futuro autônomo que ainda não chegou. O mercado precifica a promessa — mas a execução, por ora, segue no papel.
Fique atento: a auditoria da NHTSA sobre o Cybercab, a rampagem de produção em Austin e a resposta do consumidor americano a robotáxis sem controles humanos. Esses três vetores dirão se a aposta de Musk é genialidade ou miragem.
