A crise no Ueno Bank interrompeu bruscamente a corrida de empresários brasileiros por oportunidades no Paraguai, movimento que havia explodido nas semanas seguintes à eleição presidencial de 2022. A Câmara de Comércio Brasil-Paraguai confirma: a agenda de consultores lotou em dias, mas o fôlego arrefeceu diante da incerteza bancária.
O que parecia uma janela estratégica virou zona de espera. A pergunta que fica: trata-se de um susto passageiro ou de um sinal estrutural para quem mira o país vizinho?
O gatilho que gelou a fila de interessados
Na terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai colocou o Ueno sob regime de resolução. A medida suspendeu operações e iniciou a transferência de depósitos após a descoberta de fraudes ligadas ao Grupo Vázquez, controlador da instituição. Para a Câmara de Comércio, o impacto imediato foi psicológico.
“Recebemos a notícia como um balde de água fria”, resume Jeancarlos Araldi, vice-presidente financeiro da entidade. “Muitos empresários já estão receosos de ir para lá.”
Dados da Câmara mostram que a maior parte dos clientes brasileiros afetados são pessoas físicas — moradores de fronteira e trabalhadores que recebiam salários no banco. Empresas, em geral, mantinham relacionamento com outras instituições.
Efeito dominó nos planos de expansão
Luiz Fernando Nóbrega, presidente do Instituto Paulista de Contabilidade, liderou uma comitiva de contadores e investidores ao Paraguai dias antes da crise. O relato é unânime: quem estava prestes a assinar contratos pisou no freio.
“É natural. Ninguém avança com capital travado em meio a uma intervenção”, diz Nóbrega. Ele pondera, porém, que o impacto direto sobre operações já instaladas tende a ser limitado.
- Risco real: fornecedores locais com recursos retidos no Ueno podem atrasar entregas.
- Risco indireto: cadeias de exportação sentem o efeito se parceiros paraguaios perdem liquidez.
- Consenso: “Tem impacto, mas não é tão relevante”, resume Nóbrega.
Por que o Paraguai seguia no radar antes do susto
A atratividade não nasceu do nada. Três pilares sustentavam o interesse crescente:
- Lei de Maquila: regime especial para indústrias que produzem no Paraguai e exportam — isenção de IVA e IPI na importação de insumos e máquinas.
- Custo operacional: a Lupo, que inaugurou fábrica em Ciudad del Este em junho de 2025 com aporte de R$ 30 milhões, reporta produção 28% mais barata que no Brasil.
- Proximidade logística: fronteira seca com o Sul e Sudeste brasileiro encurta prazos de entrega.
A Lupo, inclusive, confirma que suas operações seguem normais e sem exposição ao Ueno. A fábrica tem capacidade para 20 milhões de pares de meias por ano.
A leitura dos grandes nomes: instituições funcionam
Luciano Hang, dono da Havan, mantém o plano de abrir a primeira megaloja da rede no país. Em nota, classificou a cobertura do caso como “ideologicamente enviesada” e destacou que o próprio pedido de renúncia do presidente Santiago Peña demonstra força institucional.
“Não existe lugar sem escândalos. O importante é que sejam apurados e os culpados, punidos. Até agora, as instituições estão funcionando”, afirmou Hang, que já visitou o Paraguai neste ano em busca de terreno.
O que observar daqui para frente
A resolução do Ueno deve ditar o ritmo de retomada. Pontos-chave para monitorar nas próximas semanas:
- Velocidade de liberação dos depósitos retidos — sobretudo para pessoas físicas e pequenos fornecedores.
- Eventual contágio a outros bancos médios paraguaios.
- Posicionamento do governo Peña sobre reformas no setor financeiro.
- Reação de agências de rating ao episódio.
Enquanto a poeira baixa, a equação de fundo não mudou: incentivos tributários, mão de obra competitiva e acesso ao Mercosul mantêm o Paraguai no mapa. A diferença é que, agora, o due diligence bancário virou item obrigatório na planilha de quem pretende cruzar a fronteira.
