Meio Ambiente

IA nas profundezas: o segredo para salvar as últimas 76 orcas do Sul…

Orca residente do sul emergindo no Mar de Salish com boia de monitoramento acústico IA ao fundo
Tecnologia de IA da Microsoft monitora ruído submarino para proteger as últimas 76 orcas do Sul.

Setenta e seis. Esse é o número exato de orcas residentes do sul que restam no Mar de Salish. A inteligência artificial acaba de entrar na jogada para impedir que esse número caia ainda mais — e o resultado inicial surpreendeu até os cientistas.

O ruído dos navios transforma o habitat dessas baleias em uma névoa sonora. Caçar salmão Chinook, sua presa principal, virou roleta russa acústica. A novidade: uma boia equipada com IA da Microsoft consegue “ouvir” e localizar os animais em tempo real, avisando comandantes de navio para reduzirem a velocidade antes da colisão — ou do erro fatal na caçada.

O inimigo invisível que mata devagar

Não é apenas o risco de ser atropelada por um porta-contêineres. O barulho crônico das rotas marítimas — 40% dos empregos em Washington dependem desse comércio — afeta a biologia das fêmeas de forma brutal. Um estudo de 2024 quantificou: para cada decibel extra no pico de ruído, a probabilidade de uma fêmea perseguir presa despenca 58%. Machos e fêmeas têm 12,5% menos chance de capturar o alimento.

Rachel Aronson, diretora da Quiet Sound, resume: “Às vezes elas caçam e erram, gastando energia sem retorno. Outras vezes, simplesmente desistem. Para uma fêmea prenhe ou amamentando, isso é sentença de morte para o filhote.”

Reduzir a velocidade funciona — mas precisa de olhos (e ouvidos) no mar

Desde 2022, a Quiet Sound replica o modelo canadense Echo: redução voluntária de velocidade em 32 km nos acessos a Seattle, Tacoma e Everett. A adesão atingiu 73% nesta temporada. O ruído subaquático caiu até 50%.

O gargalo: saber onde as orcas estão agora. Avistamentos humanos só acontecem de dia. Imagem térmica pega só a superfície. Hidrofones tradicionais dependem de análise manual que levava meses.

A boia que pensa: Water SPARROW entra em cena

Em julho de 2025, a SMRU Consulting (Universidade de St Andrews) e a Microsoft lançaram a Boia de Acústica para Comunicações (CAB) no Estreito de Haro, fronteira EUA-Canadá. Três hidrofones ancorados captam o som; o processamento roda on-board via Water SPARROW — versão aquática da IA aberta da Microsoft para monitoramento de vida selvagem.

Juan Lavista Ferres, cientista-chefe de dados da Microsoft: “O volume de áudio subaquático é humanoamente impossível de analisar. A velocidade do processamento em tempo quase real é onde a IA brilha.”

Disputa silenciosa: IA vs. algoritmo clássico

A boia roda dois sistemas em paralelo — o da Microsoft e o da SMRU — numa “competição” controlada para ver qual detecta chamados de orcas residentes do sul com mais precisão e menos falsos positivos. Jason Wood, vice-diretor de tecnologia da SMRU: “Os resultados são encorajadores. Falsos positivos caíram a ponto de o Water SPARROW operar como detector funcional.”

Por enquanto, os dados não alimentam o WRAS (WhaleReport Alert System), que envia SMS a pilotos comerciais quando baleias estão a menos de 10 milhas náuticas. O risco de alerta falso ainda trava a integração. “Navios grandes precisam de cinco milhas para reduzir velocidade”, explica Aronson. “Consciência em tempo real e antecipada é tudo.”

O que vem a seguir — e por que importa para outros negócios

  • Código aberto: Water SPARROW será liberado para instalação em outras boias compatíveis, escalando a rede de detecção.
  • Padrões sazonais: A IA vai mapear ciclos de migração e vocalização, subsidiar gestão de tráfego e políticas de conservação.
  • Multiespécies: O modelo já detecta baleias-jubarte; a meta é cobrir todo o ecossistema do Mar de Salish.

Ferres não tem dúvida: “Dado o estado desta população, não é se essas boias serão expandidas, mas quando. A conservação depende disso.” Para o setor marítimo, a equação é clara: tecnologia que evita multas, colisões e danos reputacionais — enquanto mantém o comércio fluindo. O próximo alerta no celular de um comandante pode vir de uma IA que aprendeu a distinguir o dialeto de uma orca do ruído de um motor a diesel. Quem apostar cedo nessa infraestrutura acústica inteligente sai na frente — no balanço e na licença social para operar.