Cultura

O segredo por trás da troca de Dubai por Balneário Camboriú no Réveillon de 2027

Navio Explora I fundeado na Praia Central de Balneário Camboriú com fogos de Réveillon
Explora I ancorado em Balneário Camboriú para Réveillon 2027/2028, substituindo Dubai no roteiro de luxo da MSC.

A Explora Journeys, marca de ultra luxo do grupo MSC, cancelou uma escala programada para Dubai e confirmou Balneário Camboriú como palco da virada de 2027 para 2028. O navio Explora I ficará fundeado diante da Praia Central, oferecendo a 900 passageiros uma visão exclusiva da queima de fogos. A decisão coloca a cidade catarinense em evidência no mapa do turismo de alto padrão global.

Por que Dubai perdeu a vez para Santa Catarina

A escolha não foi por acaso. Dois fatores técnicos pesaram mais que o glamour do Oriente Médio: a viabilidade de reservar uma área de fundeio exclusiva para a noite de Réveillon — algo considerado impossível em Copacabana — e os indicadores de segurança pública da cidade. Para o segmento de luxo, onde a privacidade e a previsibilidade são moedas mais valiosas que o destino em si, Balneário Camboriú apresentou a melhor equação.

O navio traz a bordo lojas como Cartier e Rolex, além de uma suíte de 500 metros quadrados assinada por Patricia Urquiola. Segundo Wellington Zampronio Zarpellon, chefe de Portos e Experiências da Explora na América do Sul, 80% dos hóspedes em viagens internacionais são norte-americanos. O perfil do passageiro antecipa o tipo de consumo que a cidade deve se preparar para receber.

Operação inédita exige logística de precisão

Embora a cidade já receba transatlânticos, nunca uma embarcação permaneceu fundeada na Praia Central durante a virada do ano, o pico de fluxo turístico local. A operação para a temporada 2027-2028 envolverá a companhia, o Atracadouro Barra Sul (administrado pelo Grupo Tedesco) e órgãos de segurança marítima e terrestre. Os detalhes de desembarque, embarcações de apoio e protocolos ainda estão em definição.

Para o secretário de Turismo, Evandro Neiva, a escala transforma o próprio Réveillon em produto. “Além do destino, o Réveillon passa a ser um atrativo dentro da própria venda do cruzeiro”, afirma. A previsibilidade é o trunfo operacional: horários de chegada e saída definidos, número exato de passageiros e perfil conhecido antecipadamente permitem planejar serviços, roteiros e experiências em terra com meses de antecedência.

O que muda na estrutura da festa

A prefeitura já planeja ampliar o espetáculo pirotécnico: passarão de nove para dez balsas distribuídas pelos quase seis quilômetros de orla, com duração de 15 minutos. A expectativa é que os cruzeiristas circulem pela cidade durante o dia e retornem ao navio para assistir à queima de fogos antes de seguir viagem.

  • Passeios podem ser comprados antecipadamente (no ato da reserva do cruzeiro) ou no destino.
  • Opções vão de visitas guiadas e turismo de aventura a roteiros totalmente personalizados.
  • O dia inteiro em terra maximiza o gasto médio por visitante.

Consumo direto e vitrine para operadores globais

Juliana Tedesco, da administração do Atracadouro Barra Sul, destaca que o efeito é duplo: consumo imediato em gastronomia, comércio e serviços turísticos, mais a exposição da cidade para quem vende e monta roteiros internacionais. “Em navios com esse perfil, as excursões costumam estar incluídas no roteiro, o que garante o desembarque”, explica.

O diferencial desta escala é o cenário: a operação ocorre na noite de maior público da temporada, durante o maior evento do município. A avaliação é que isso demonstra a capacidade da cidade para receber esse público e abre precedente para novas escalas de alto padrão no futuro.

O desafio de transformar escala em destino de retorno

Para Ludiane Goulart, diretora-executiva do BC Convention, o ganho real não é o pico de visitantes, mas a conexão com um público “altamente qualificado”. A meta é fazer Balneário Camboriú ser vista como alternativa de viagem completa, não apenas uma parada de poucas horas. “Pode se transformar no próximo destino desse viajante”, argumenta.

Ela observa que a região já tem ofertas de luxo — gastronomia reservada, compras privativas, navegação costeira, experiências ao nascer do sol —, mas faltava unidade. “O luxo está cada vez menos relacionado à ostentação e cada vez mais associado à qualidade da experiência, ao acesso, à exclusividade e à forma como o destino faz o visitante se sentir”, define Ludiane. O próximo passo é conectar os produtos existentes em uma jornada completa, personalizada e segura.

O que observar daqui para frente

A antecedência de três anos é rara no setor e funciona como janela estratégica. Investidores e empreendedores locais devem monitorar a formatação dos pacotes de experiências em terra, pois a inclusão obrigatória de excursões no bilhete do cruzeiro direciona o fluxo de receita. A capacidade de entregar uma “jornada única” — e não serviços isolados — ditará se a cidade conquista o status de home port ou destino de pernoite no futuro, multiplicando o impacto econômico muito além de uma única noite de Réveillon.