A indústria nacional de defensivos agrícolas protocolou na Camex pedidos para elevar o imposto de importação a 35% sobre genéricos chineses — uma manobra que, se aprovada, repassará o custo direto ao bolso do produtor. A decisão está nas mãos do Gecex e pode sair nas próximas semanas.
O movimento expõe uma fratura silenciosa no agronegócio: de um lado, multinacionais e fabricantes nacionais perdem mercado; do outro, importadores ganham espaço com preços até 30% menores. No meio, o agricultor assiste à disputa sem saber qual lado vai ditar a fatura da próxima safra.
Os números que assustam a indústria instalada
Em seis códigos tarifários (NCMs) alvo dos pedidos, a participação chinesa no valor importado saltou de 10,5% em 2020 para 48,8% no período mais recente. De janeiro a setembro, as compras externas desses produtos somaram US$ 2,79 bilhões — sendo US$ 1,36 bilhão vindos da China.
Hoje, quatro desses seis NCMs têm alíquota zero. A reivindicação do Sindiveg e da Abifina é unificar tudo em 35%, teto permitido pela OMC. Para a indústria, não é protecionismo: é sobrevivência diante de patentes vencidas e de um modelo de importação de formulados prontos que dispensa fábricas locais.
Quem ganha e quem perde com a sobretaxa
- Produtor rural: custo de insumos sobe no curto prazo; poder de barganha cai se houver menos concorrentes.
- Indústria nacional (Ourofino, Nortox, multinacionais): proteção de margens e incentivo a manter plantas no Brasil.
- Importadores (Agriconnection, CCAB, Tecnomyl): modelo de negócio ameaçado; já pediram tarifa zero em embalagens pequenas.
- Fisco: arrecadação extra em momento de aperto fiscal — argumento que pesa em Brasília.
A Aenda, que representa importadores, contra-ataca: alega que boa parte da “produção nacional” é apenas formulação de ingredientes ativos que vêm, ironicamente, da própria China. Defende discussão ampla de competitividade, não barreira tarifária.
O tabuleiro político em Brasília
A CTIA (Câmara Temática de Insumos Agropecuários) deve discutir o tema nesta sexta-feira. Seu parecer subsidia o Ministério da Agricultura, que leva a posição ao Gecex — colegiado da Camex que decide tarifas. Não há data para votação final.
Dois vetores jogam a favor da indústria: a bandeira da “neoindustrialização” do MDIC e a necessidade de receita do governo. Importadores temem que o argumento fiscal pese mais que o técnico.
O que observar daqui pra frente
Três sinais valem monitorar nas próximas semanas: (1) a posição oficial do Ministério da Agricultura na CTIA; (2) se entidades de produtores (Aprosoja, CNA, Frente Parlamentar) se manifestam contra ou a favor; (3) o calendário do Gecex — decisões tarifárias costumam sair em reuniões mensais, mas pedidos sensíveis podem entrar em pauta extraordinária.
Enquanto a disputa não se resolve, a estratégia mais segura para o comprador é diversificar fornecedores, travar contratos de longo prazo onde possível e manter estoque tático dos princípios-ativos mais sensíveis (2,4-D, glufosinato, herbicidas de pré-emergência). A fatura de 2025 pode ser escrita agora — sem que o produtor tenha assinado o cheque.
