O economista André Lara Resende negou ter se reunido com o presidente Lula ou ter qualquer encontro marcado. Mas a história não para por aí: ele acusa rivais políticos de plantarem a notícia para desgastar aliados de sua proposta sobre a taxa de juros.
Em entrevista recente, o ex-diretor do Banco Central e um dos formuladores do Plano Real foi taxativo: “Não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele”. Ele também descartou qualquer interesse em assumir cargo no novo governo.
Para o investidor e o empresário, o episódio expõe a fragilidade das apostas sobre a política monetária nos próximos meses. A especulação sobre uma guinada na Selic moveu mercados — e entender o que é real e o que é manobra passa a ser diferencial de risco.
Por que o mercado reagiu à proposta de 7,5% ao ano
Em setembro, Lara Resende publicou artigo defendendo a criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN). O órgão coordenaria metas de longo prazo para contas públicas e juros básicos.
O texto trazia uma referência numérica que chamou atenção: redução gradual da Selic para aproximadamente 7,5% ao ano em 12 meses. Hoje, a taxa está em 13,75%.
Analistas e gestores leram o número como sinal de pressão por afrouxamento monetário acelerado. Críticos argumentaram que a proposta limitaria a autonomia operacional do Banco Central.
Lara Resende esclareceu depois que o percentual é apenas indicativo. Qualquer trajetória dependeria das condições econômicas observadas durante a implementação do novo modelo — se ele vier a existir.
O gatilho: Gleisi, o artigo e a disputa pelo rumo da economia
O debate ganhou volume em 28 de outubro, quando a deputada Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou o artigo nas redes sociais. A manifestação foi lida como aval político à tese de coordenação fiscal-monetária.
Dias depois, em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75%, interrompendo o ciclo de cortes iniciado com a taxa a 15%. A decisão reforçou a leitura de que o BC resiste a pressões por queda mais rápida.
Segundo Lara Resende, a especulação sobre sua aproximação com o Planalto tem alvo claro: atingir integrantes do governo que demonstraram simpatia por suas ideias. Ele classifica a notícia da reunião como “plantada para gerar desgaste”.
O que observar daqui para frente
- Tramitação legislativa: a criação do CFMN depende de aprovação do Congresso; não há proposta formal do Executivo até o momento.
- Comunicação do BC: atas e falas de diretores do Copom sinalizarão tolerância a pressões políticas sobre a meta de inflação.
- Âncora fiscal: o ritmo de queda da Selic seguirá condicionado à credibilidade do arcabouço fiscal e à trajetória da dívida/PIB.
- Ruído político: vazamentos seletivos e “plantas” de imprensa devem se intensificar na disputa pela narrativa econômica.
O episódio deixa uma lição prática: em cenário de transição e incerteza fiscal, separar sinal de ruído não é exercício acadêmico — é gestão de risco. Quem basear decisões em boatos de reuniões inexistentes paga o preço na ponta.
