A Cisam paralisou a produção em Pará de Minas e demitiu 70 trabalhadores nesta quinta-feira (5), dois dias depois de a Gerdau anunciar o fim da fabricação de aço em Divinópolis. O Centro-Oeste mineiro perde, em menos de uma semana, duas das suas principais referências siderúrgicas.
O comunicado da Cisam cita “dificuldades fora de seu controle”, com destaque para o abastecimento de gusa — insumo essencial que tem ficado escasso e caro. Na Gerdau, o motivo declarado é outro: perda de competitividade frente ao minério de ferro em alta e ao aço importado que entra no país a preços difíceis de bater.
O fio condutor que une as duas paralisações
Embora as justificativas oficiais sejam diferentes, especialistas do setor apontam um denominador comum: a estrutura de custos no Brasil deixou de fechar a conta para quem produz aço longo em unidades de menor escala. O gusa, o minério, a energia e a logística pesam mais do que a receita obtida no mercado interno, pressionado por importações — sobretudo da China e da Rússia.
Na prática, isso significa que mesmo siderúrgicas com gestão enxuta e demanda razoável podem tornar-se inviáveis da noite para o dia se um elo da cadeia se rompe. No caso da Cisam, foi o gusa. Na Gerdau, foi a equação global.
Números que dimensionam o impacto
- 70 demissões imediatas na Cisam (paralisação “por tempo indeterminado”)
- 400 cortes previstos na Gerdau Divinópolis — 280 já efetivados, 120 com proposta de transferência
- Setores mantidos na Gerdau: mecânica, logística e laminação
- Audiência pública marcada para 13 de novembro na Câmara de Divinópolis
O sindicato dos metalúrgicos de Divinópolis confirmou os números e disse que negocia a manutenção de parte da operação. Em Pará de Minas, a entidade foi avisada com antecedência, e a empresa prometeu cumprir todos os direitos. Um vídeo gravado na fábrica mostra o momento do anúncio: “estamos hibernando”, disse o representante da Cisam, pedindo desculpas aos trabalhadores que seguiam para exames demissionais.
O que está em jogo para a cadeia produtiva regional
As duas cidades formam, com outras do Centro-Oeste, um corredor industrial que gira em torno da metalmecânica, autopeças e construção civil. Quando uma siderúrgica para, o efeito cascata atinge transportadoras, fornecedores de refratários, prestadores de manutenção e o comércio local.
Prefeituras e governos estaduais tentam articular alternativas. Em Divinópolis, há movimento para levar o caso ao vice-presidente Geraldo Alckmin e ao governo de Minas. Em Pará de Minas, a reportagem não obteve retorno da prefeitura até o fechamento.
Cenários para os próximos 30 dias
A “hibernação” da Cisam deixa aberta a possibilidade de retomada se o abastecimento de gusa se normalizar — mas não há prazo. Já a Gerdau mantém a laminação ativa, o que permite abastecer o mercado com bobinas importadas ou vindas de outras unidades do grupo, preservando alguma receita e a base de clientes.
Três variáveis vão ditar o desfecho:
- Preço do gusa e do minério no mercado spot nas próximas semanas
- Medidas de defesa comercial (anti-dumping, sobretaxas) que o governo federal possa adotar
- Capacidade de negociação política para manter ativos ociosos sem que se deteriorem
O que observar daqui para frente
Para quem acompanha o setor — investidores, fornecedores, gestores de cadeia de suprimentos —, o sinal é claro: a siderurgia de médio porte no Brasil está no limiar da viabilidade. Unidades que dependem de insumos comprados no spot e não têm integração vertical ou escala para diluir custos logísticos estão expostas a choques que podem fechar as portas em dias.
A audiência de 13 de novembro em Divinópolis será o primeiro termômetro público da capacidade de reação institucional. Se houver anúncio de medidas concretas — crédito subsidiado, redução tarifária temporária, garantia de compra governamental —, o modelo pode ganhar fôlego. Se não, a lista de “hibernações” pode crescer.
