Nas urnas de terça-feira (3), o recado foi claro: 40 dos 41 plebiscitos locais rejeitaram a instalação de data centers. A reação veio imediata — o Nasdaq Composite despencou 5,5% apenas dois dias depois.
Mas a queda das ações é só a ponta do iceberg. O que está em jogo é o modelo de expansão que sustentou a valorização bilionária das gigantes de tecnologia na última década.
O que 57% dos eleitores já sabiam — e o mercado ignorava
Pesquisa da NBC News na boca da urna revelou um dado que deveria ter acendido alertas muito antes: 57% dos americanos acreditam que a inteligência artificial fará mais mal do que bem. O número sobe para 76% quando a pergunta é sobre data centers no próprio quintal.
Essa não é uma rejeição partidária. É uma conta que não fecha para quem mora perto das megaestruturas.
A conta que chegou para a população
Data centers de hiperescala — aqueles com demanda igual ou superior a 25 megawatts — consomem volumes industriais de energia e água. O resultado aparece direto na fatura de luz e no custo de vida das comunidades vizinhas.
- Energia: encarecimento tarifário em regiões com alta concentração de centros
- Água: competição por recursos hídricos em áreas já estressadas
- Terra: valorização imobiliária que expulsa moradores de longa data
Foi essa equação — lucros globais, custos locais — que mobilizou petições populares em dez estados. A Ballotpedia registra rejeição acima de 60% na maioria das consultas. Em Ottawa, Kansas, a proibição de centros acima de 25 MW venceu com 72% dos votos.
O abalo na aliança política que sustentava o setor
O economista André Roncaglia, diretor-executivo do FMI no Brasil, explica: os estados com menos regulação atraíam mais investimentos. Isso criava uma corrida para o fundo regulatório que beneficiava as big techs — e o partido do presidente Donald Trump era o principal fiador desse arranjo.
A perda das maiorias na Câmara e no Senado quebrou essa coalizão. O mercado precificou a mudança na sexta-feira.
Por que isso pode mudar em março
A deputada eleita Yassmin Ansari (Arizona) já sinalizou a pauta do “dia 1”: pausa no desenvolvimento de IA avançada, regulação da indústria e proibição de superinteligência artificial. Em setembro, Trump tentou antecipar o movimento com uma agenda de “autorregulação” — as próprias empresas definindo suas regras.
A resposta das urnas tornou essa proposta politicamente inviável.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo dos próximos trimestres: a velocidade com que democratas transformam a maioria legislativa em projetos concretos, a disposição de governadores estaduais para endurecer licenciamento ambiental e a reação do capital — se migra para jurisdições mais brandas ou aceita o novo marco regulatório.
Para quem aloca capital em tecnologia, a lição de 2026 é clara: licença social deixou de ser detalhe ESG e virou variável de valuation. O próximo plebiscito pode ser no seu portfólio.
