Uma empresa atribuída ao advogado Willer Tomaz — apontado pela Polícia Federal como o maior apostador do país em 2025, com R$ 5 bilhões em volume — transferiu R$ 17,7 milhões para a Talismã Digital, holding da influenciadora Virginia Fonseca. As cinco remessas via Pix ocorreram entre março e setembro de 2024 e foram classificadas como suspeitas pelo Santander, que comunicou a operação ao CoAF.
O detalhe que acendeu o alerta: a remetente, AMP Pay Marketing e Negócios, está enquadrada no Simples Nacional, regime restrito a faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. Como uma microempresa movimentou quase quatro vezes seu teto legal em poucos meses para uma única contratada?
A estrutura por trás dos repasses
Segundo cadastro na Receita Federal, a AMP Pay tem capital social de R$ 50 mil e endereço em um box de centro comercial em Itajaí (SC). O sócio declarado é Guilherme Maciel, que nega conhecer Willer Tomaz e afirma que a empresa atua como gateway de pagamentos. Ele não detalhou quais serviços Virginia prestou, nem confirmou se a operação de fato funcionava no endereço cadastrado.
Para a PF, a AMP Pay integra a “primeira camada” de pessoas jurídicas usadas pelo advogado para circular recursos. Em e-mail ao Magnum Bank em 2024, o próprio Willer se apresentou como sócio ou acionista da empresa. A hipótese dos investigadores: trata-se de uma empresa de fachada.
O perfil do investigado e a conexão com a Blaze
Willer Tomaz não é um apostador comum. Uma nota técnica do Ministério da Fazenda revelou que, só em 2025, ele sacou mais de R$ 200 milhões das plataformas — a maior parte reinvestida nas próprias bets. A PF também identificou transferências atípicas da fintech A55 diretamente para a Blaze, casa de apostas que Virginia divulgava no mesmo ano dos repasses.
O cruzamento de endereços reforça a suspeita: a Foggo Entertainment, operadora da Blaze, usou o mesmo endereço de empresas ligadas a Willer e ex-sócios. A polícia ressalva que isso não prova controle oculto, mas justifica aprofundar a apuração sobre vínculos societários ou operacionais.
Os números da Blaze em 2025 (jan–nov)
- Receita bruta no Brasil: R$ 1,9 bilhão
- Lucro: R$ 361 milhões
- Depósitos de jogadores: R$ 11 bilhões
- Folha salarial: R$ 8,6 milhões
- Sede da matriz: Ilha de Man
O que disse a influenciadora e o desdobramento no Senado
A assessoria de Virginia Fonseca confirmou os pagamentos como contrapartida de campanhas publicitárias regularmente contratadas, mas não especificou quais. Garante que Willer não aparece em nenhum contrato, que ela não o conhece e nunca tratou com ele.
Em abril de 2025, a influenciadora depôs na CPI das Bets como testemunha. A relatora, senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), pediu seu indiciamento por publicidade enganosa e estelionato — a acusação baseava-se na suspeita de que anúncios induziam apostadores a ganhos irreais. O relatório foi rejeitado pela comissão.
O que observar daqui para frente
A investigação mira a interseção entre três vetores: empresas de pagamento com perfil incompatível com suas movimentações, casas de apostas com estrutura societária opaca e contratos de influenciadores que podem mascarar fluxos ilícitos. Para o mercado, o sinal de alerta é claro — compliance de marketing de afiliados e due diligence de parceiros de pagamento deixam de ser opcionais.
Próximos passos a monitorar: eventuais quebras de sigilo bancário da AMP Pay, depoimento de Guilherme Maciel à PF, e se o Ministério Público oferecerá denúncia com base no RIF já encaminhado à CPI. O desfecho pode redesenhar as regras de contratação de creators por bets reguladas no Brasil.
